domingo, 22 de março de 2015

Saramago e a distopia do presente – Resenha de A Caverna



O próprio José Saramago sempre se reconheceu como um ensaísta que seguiu pelo caminho errado, e em suas andanças pelas palavras acabou se tornando um romancista, e, ironicamente (ou não), dos bons. O comitê do Nobel que o diga. Em todo caso, seu espirito ensaístico fez com que seu olhar sobre a história – e nos últimos anos principalmente sobre a história recente, fosse sempre crítico, ácido, minucioso e, muito frequentemente, filosófico. Disso nasceu dois traços fundamentais de sua obra, o primeiro, a natureza nem um pouco fofa de seus escritos, motivo pelo qual o autor é conhecido em Portugal, muito merecidamente, como “sal amargo” (esses trocadilhos portugueses...); e a segunda característica, muito mais relevante, que é a que concerne ao seu estilo, que qualquer leitor de primeira viagem saramaguiano sabe do que estou falando: a estrutura propriamente dita de sua prosa, com uma pontuação e paragrafação peculiar, além da construção do narrador, sempre o mesmo, sempre uma projeção da criticidade do próprio Saramago. Uma prosa, que como o próprio autor explica, nasceu de seus pensamentos para ser reproduzida em voz alta. E é justamente nesses termos que encontramos a obra que talvez seja a mais contemporânea do autor, A Caverna (Companhia das Letras, 2002).
Densa, pesada, irônica, simbólica, ácida, são alguns dos adjetivos que se pode atribuir a obra. Entretanto, se você não é um leitor de primeira viagem na linguagem saramaguiana, você irá perceber que é um livro que flui relativamente fácil comparado com outras obras do autor. Em parte isso se deve a própria história, que é menos filosofada e mais contada. Além de ser muito mais atual.
José Saramago
Saramago em A Caverna, faz uma recontagem do mito da caverna que aparece na literatura pela primeira vez na boca de Sócrates e através da pena de Platão, lá na Grécia Antiga. No mito original, temos homens acorrentados em uma caverna, sem conseguir sair e que contemplam sombras na parede a sua frente, as quais tomavam por realidade. Na versão de Saramago, entretanto, o homem está livre e, que ironia, quer entrar na caverna. Essa metáfora é aplicada de uma forma bem kafkiana para retratar o consumismo e o desejo moderno de cada vez mais se tornar dependente de coisas para se tornar “uma pessoa real”, como se a felicidade e a vida plena fossem frutos de bens materiais e muitas vezes artificiais. Esse conflito é encarnado pela imagem de um mega centro comercial, que controla a economia de toda uma região no livro. O personagem principal, um simples oleiro, se descobre no momento mais negro de sua vida quando o centro decide não comprar mais seus produtos, pois o barro está sendo substituído pelo plástico. E enquanto tenta se adaptar para não ser esmagado (algo que o capitalismo adora fazer com tudo o que julga obsoleto e fora de moda), o oleiro irá enfrentar todas as questões existenciais de nosso tempo e fazer uma profunda análise da pós-modernidade. (Ler A Caverna à luz de Bauman, por exemplo, é uma experiência intelectual incrível).
Esse romance que possui muitos elementos distópicos é encarado pelo autor como uma alegoria do mundo moderno, um mundo onde os laços humanos tem sido podados em função da coisificação planetária e cada vez mais a indiferença e a brevidade se tornam tendências universas.  Capaz de arrancar lágrimas (quem não ficou indignado com o destino de Achado?), de levar a reflexão profunda (acredite, é impossível sair ileso desse romance), e com uma terrível tendência para se tornar cada vez mais atual, A Caverna é talvez o melhor romance da segunda faze do autor e foi uma das melhores leituras que eu tive o prazer de realizar em 2014. Ler A Caverna é ler o mundo onde estamos, indispensável para qualquer leitor crítico. 



quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Os melhores e os piores livros de 2014



Ano novo, vida nova, clichê velho, tanto quanto o velho clichê das promessas de ano novo, mas é meio por ai que vamos abrir esse 2015 e nem é tanto por falta de ideias. O blog andou meio parado nos últimos seis meses, e por isso o primeiro grande ato do ano vai ser reviver isso aqui, tirar as teias, espantar as moscas e raspar uns pelos, mas é melhor não explicar isso. Em todo caso, garantir um ano com muito mais conteúdo vai ser meu objetivo em 2015 (eis nossa promessa). E, como não deixa de ser nem no mundo da literatura, é hora de fazer o balanço, dos melhores e piores livros lidos nesse falecido 2014 (e que já foi BEM tarde, na minha opinião). Infelizmente, para mim, não foi um ano de grande descobertas literárias, mas isso provavelmente foi reflexo do meu desleixo como leitor esse ano. 2014 foi o ano em que menos li (desde que comecei a fazer contagem de livros lidos), e sim, eu me envergonho disso! Entretanto (outra promessa de ano novo aqui! – quantos parênteses, meu Deus!), nesse ano eu vou virar a mesa e bater meu recorde. E enquanto isso não ocorre, eu preparei um balanço do que mais me marcou e do que menos foi relevante, apesar de não ter tido nenhum livro que eu tenha detestado ou desgostado muito, tudo foi um pouquinho bom pelo menos. Mas vamos começar com os melhores:

Melhores livros de 2014:


01-  A Caverna – José Saramago
Eu gosto MUITO do Saramago desde que eu li (há uns dois, três anos) o Ensaio Sobre Cegueira, e desde então eu não havia lido mais nada. Esse ano eu compensei, e li As Intermitências da Morte, que vi muitos blogs falando que era maravilhoso, e tal, o que, aproposito, é verdade absoluta. O livro tem uma construção maravilhosa, que já começa (estou falando literalmente da primeira palavra) de um jeito curioso e termina de uma forma redondinha. Entretanto, senti que faltou o mesmo “óóóó” do Ensaio Sobre a Cegueira. Felizmente, li também A Caverna, por causa da faculdade, e acabou sendo uma das melhores leituras não só do ano, como da minha vida. O livro trata da representação do mito da caverna que Platão escreveu dois mil anos atrás adaptado para o presente. Nessa recontagem do mito, o homem moderno não está preso na caverna, ele quer fugir para a caverna, o que é representado por um centro comercial que encarna simbolicamente o consumismo. É um livro político e humanista ao mesmo tempo, que trata das relações humanas em todos os níveis: pessoais, interpessoais, familiares, sociais, etc. E te faz ter muitas reflexões. Mas vou falar melhor sobre ele em uma resenha em breve.




02-  Budapeste – Chico Buarque
Eu precisava ler esse livro! Para tentar redimir o Chico Buarque para mim. Eu havia lido Benjamim há algum tempo (ano retrasado eu acho) e não gostei. Achei interessante, mas não chegava nem de perto no que eu esperava. Budapeste, por outro lado, me ganhou já nas primeiras páginas. Primeiro porque é sempre bom ler um autor brasileiro contemporâneo que não trate nem de violência, nem de triângulos amorosos, nem fale em prosa poética. Segundo porque o romance é leve em sua linguagem e denso em sua profundidade, mergulhando no poder das palavras e na significação das palavras sobre quem as profere, no caso o autor do livro, o que cria um efeito metalinguístico incrivelmente poético (entendedores entenderão). Em todo caso, também foi uma leitura que valeu pelo ano e me fez querer ler o mais rápido possível mais coisas do Chico (principalmente depois das últimas eleições). Além disso, na minha humilde opinião, eu acho que a literatura brasileira precisa de autores tão diferentes assim, e com urgência.



03-  Homem Comum – Philip Roth
Outro livro que entrou para as melhores leituras da minha vida, O Homem Comum foi inclusive eleito por uma revista americana como um dos melhores livros da primeira década do século XXI, em níveis mundiais (um poder, claro, que só os americanos acham que têm, mas enfim, o livro consta na mesma lista que vários de livros de autores de todas as nacionalidades). O romance faz uma análise da morte e, mais propriamente, da fim da vida, mas não vou comentar muito porque já tem resenha no blog. Em todo caso, foi meu segundo livro do Philip Roth, e pela segunda vez o cara não me decepcionou.



04-  A Espera De Um Milagre – Stephen King
Esse é um daqueles livros que a gente se pergunta: “por que demorei tanto para ler?”. Eu queria tanto ler que nem tinha assistido ao filme, que é super cotado e amado por quem viu (e provavelmente por isso não gostei). Chorei lágrimas até embaçar a visão e ter que parar de ler para enxugar, e fiquei fascinado com esse Stephen King que eu não conhecia, porque ou o tradutor era melhor do que ele, ou o cara realmente sabe escrever boa prosa, e como fã do autor que já leu muitos livros dele, eu nunca tinha encontrado um texto tão refinado e bem trabalhado como em A Espera de Um Milagre. É literatura com L maiúsculo. Mas, não vou falar muito porque já fiz uma resenha e com certeza grande maioria do planeta já conhece muito bem a história.


E fica aqui uma menção honrosa para 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Arthur C. Clarke, que me fez sofrer por saber que minha geração nunca vai pisar em outro planeta, muito menos outra galáxia; Entre Quatro Paredes, de Jean-Paul Sartre, que foi a primeira obra literária do autor que li e me deixou atônito; A Paixão Do Socialismo – De Vagões E Vagabundo, de Jack London, que me deixou pobre, porque me fez comprar uns dez livros do cara e já já vou fazer uma resenha sobre o livro; e finalmente a obra de ensaios Como Morrem Os Pobres, de George Orwell, que na minha opinião mostra o verdadeiro talento do cara, que era melhor ensaísta que romancista.


E, por fim, os não tão bons de 2014:


01-  Doutor Sono – Stephen King
Em primeiro lugar, preciso dizer, que gostei do livro sim, só que para ser a continuação da GRANDE obra do King eu esperava mais, ou seja, o que me desanimou no livro foi, como sempre, as minhas próprias expectativas. Em todo caso, já fiz resenha, e comentei que a mudança drástica na estrutura narrativa é o ponto forte na medida em que reflete os gostos do leitor de hoje, mas, por outro lado, destoa com qualquer expectativa que eu tinha.


02-  A Festa Da Insignificância – Milan Kundera
Então, motivos para os quais eu não gostei de um livro do Kundera, o que foi uma surpresa terrível para mim: primeiro, eu me senti burro lendo, porque tenho certeza que deixei escapar todas as nuances de subentendidos que fizeram o livro ser classificado como um dos melhores do ano pela crítica no Brasil; segundo, seja lá o digam, não é o autor de A Insustentável Leveza do Ser. Ele arriscou algo totalmente novo, o que foi chato, porque cada romance do Kundera é novo, mesmo sendo sempre ele. Nesse caso, faltou a profundidade, a leveza e a beleza que eu gosto tanto. Apesar que, como leitor de sua teoria, eu encontrei todos os elementos que o autor aprecia na obra. Mas não gostei!


03-  Amalgama – Rubem Fonseca
Outro dos meus autores favoritos, Rubem Fonseca é provavelmente o escritor brasileiro que eu mais curto e é o único autor que eu tenho a bibliografia completa, e apesar de não ter gostado nada dos seus últimos três livros, eu provavelmente vou continuar comprando os futuros na esperança de que ele volte a ser o que era. Porque se continuar assim, é melhor se aposentar.


04-  O Príncipe Da Névoa – Carlos Ruiz Zafón

Eu pensei que ia ter um eterno caso de amor com o Zafón, aí eu li esse livro. Vale ressaltar que não é ruim, mas é o primeiro livro dele, foi escrito para um público mais novo que o público de A Sombra do Vento e muito tempo antes. Logo, isso faz a gente perdoar a ausência daquilo que encanta na obra dele, aquela sensação de estar lendo um livro revelador. Mas como entretenimento é até aceitável. 

E é isso! A postagem ficou um pouco longa, mas 365 dias é um tempo bem longo, mesmo para quem leu pouco como eu, logo, foi uma medida proporcional. E agora, que venha 2015 com livros ainda melhores! \o

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Os fantasmas de Stephen King – Resenha de Doutor Sono




Quando Stephen King anunciou que estava escrevendo uma continuação para seu clássico O Iluminado, muita gente (principalmente os fãs do bom e velho Kubrick) já foram torcendo o nariz. Não que a ideia de reencontrar e descobrir o que aconteceu com o menino Danny Torrance não tenha deixado todo mundo muito animado, mas, como o próprio King admite no epílogo do livro, um remake, uma continuação, ou seja o que for, de um clássico, é sempre um desafio – e quase sempre um resultado infeliz. Assim, Doutor Sono (Suma de Letras, 2014), é apresentado pelo próprio autor como um “exorcismo” do personagem que nunca abandonou sua mente (e a dos leitores, aparentemente). E assim, King traz seu personagem da década de 70 até os dias de hoje.  
A história começa com os acontecimentos subsequentes ao primeiro livro, contando que fim tiveram os personagens sobreviventes (e alguns fantasmas também). Mas o fato é que os fantasmas tão assustadores de O Iluminado não estão no plano principal dessa sequência. Outro tipo de terror está destinado a se chocar com o pobre Danny. Mas já chegamos lá. O livro vai narrando a vida do garoto ao longo das décadas subsequentes, como ele perdeu a mãe, se envolveu com bebida, e, em suma, de que forma o anjinho do hotel Overlook se tornou uma pessoa ruim. O que acaba transformando a narrativa em uma história de redenção, quando Danny chega em uma nova cidade, pequena, e decide mudar de vida, conseguindo trabalho em um asilo. É nesse asilo que ele ganha a alcunha sinistra de Doutor Sono, pois embora seja apenas um enfermeiro, seu dom psíquico lhe permite “facilitar” o momento da morte dos pacientes, motivo pelo qual ele ganha algum respeito.
Capa do livro
E assim os anos se passam, até que uma garota, Abra Stone, entra em sua vida. E trata-se de, nada mais nada menos, uma versão super poderosa em miniatura do próprio Danny (tão poderosa que ela tem seu primeiro contato psíquico com Danny aos três meses de idade), e assim como o protagonista do primeiro livro, ela logo chama a atenção das criaturas das trevas: o Verdadeiro Nó. Uma seita de criaturas que podem viver para sempre se alimentando de crianças com “iluminação”. E conforme o Verdadeiro Nó se volta contra Abra, ela procura ajuda em Danny, que se tornará seu mentor e melhor amigo na luta eminente que se aproxima.
King mostra novamente seu poder fantástico de criar personagens nesse livro, pois todos eles (inclusive os vilões) são extremamente cativantes, sendo que provavelmente essa característica seja o ponto forte do livro. É impossível não querer saber como a história termina e ler suas 500 páginas em três dias. Mas um ponto me chamou bastante a atenção: a mudança total na natureza da história.

Para quem leu (ou assistiu) O Iluminado, nos é apresentada uma família com problemas estruturais e financeiros, e uma cena de total isolamento, na qual os três (quatro com o cozinheiro) ficam presos em um hotel isolado contra os fantasmas que na época eram o auge do assustador. Mas hoje em dia, se pensarmos em termos de mercado, o que está na moda é o extremo oposto, ou seja, as histórias de equipes (vide Os Vingadores) e as tramas com muitos personagens (bate aqui tio Martim), e para falar a verdade, séries como Supernatural tornaram os fantasmas bem menos assustadores. E o resultado é a reformulação total de Doutor Sono em detrimento da primeira história. Nós temos dois protagonistas, com muitos “amigos” para ajudar, e um grupo de vilões que não deixam de ser simpáticos. Não sei se só eu achei isso, mas essa “atualização” da história me pareceu muito significativa, e até legal, se pensarmos que estamos acompanhando o desenvolvimento das narrativas fantásticas e de terror. Em todo caso, a história é envolvente e te convence, mesmo sem dar medo. É uma boa leitura, como praticamente tudo que o Stephen King escreve, e os fantasmas de Stephen King são agora, mais do que nunca, pops. 

Stephen King

quarta-feira, 9 de julho de 2014

O Que Woody Allen E A Literatura Russa Têm Em Comum?

 
Woody Allen

A primeira coisa que alguns leitores podem estranhar é a relação entre uma personalidade do cinema com um blog de literatura. E embora exista uma discussão bem antiga e reconhecida sobre a proximidade entre as duas artes (cinema e literatura), com estudos e teses bem interessantes (inclusive a que estamos prestes a lançar, rs), no caso do cineasta americano essa relação é bem mais próxima. Escritor por vocação, Allen começou sua carreira como roteirista, a qual continua até hoje, muito mais reconhecida, claro, e, além de suas contribuições escritas para o cinema, também conta com vários livros publicados, entre contos, crônicas e até peças para o teatro. Assim, nem dá para pensar muito longe das belas letras a obra do comediante mais trágico dos EUA. Entretanto, e é aqui que começamos nossa análise, existe mais em comum entre Woody Allen e Dostoiévski, que entre o cineasta e Ingmar Bergman, que é um dos diretores mais apreciados por Allen.
Antes de continuar, contudo, devo confessar que este que vos fala é um tremendo fã desse judeu neurótico, e talvez eu acabe dando as observações que eu faça algum valor demasiado, mas vamos lá.
Em 2011, Woody Allen em um documentário sobre sua vida falou sobre certas influências literárias, em destaque especial para a literatura russa, o que eu já havia constatado. Afinal, quem não sentiu um deja vu em Mach Point (2005) quando dezenas de alusões diretas e indiretas à Crime e Castigo começaram a saltar da tela? A ideia do crime enquanto clímax máximo da narrativa, e as complicações ideológicas já haviam sido inclusive abordadas em outros filmes do diretor. 
Um deles foi o filme Crimes e Pecados, de 1989, com uma problemática muito parecida com a do filme de 2005, mas uma abordagem muito mais psicológica, quase freudiana. O interessante é que, diferente do grande autor russo, o cineasta parece bem menos esperançoso na consciência e na redenção humana. É quase uma confissão de desilusão, repleto de uma insatisfação existencial que beira o vazio. Outra referência pode ser encontrada no filme O Sonho de Cassandra, de 2007,  com uma trama em torno de dois irmãos muito diferentes que se envolvem em um conflito com desenlace trágico, bem ao estilo Irmãos Karamazov.
Entretanto é em outro clássico, A Última Noite De Boris Grushenko, ou apenas Love And Death, no original em inglês, que a relação com a literatura fica mais evidente. Comédia com um alto teor pastelonico ainda da primeira fase do diretor, do ano de 1975, o filme é uma sátira dos romances russos do século XIX. Ambientado em uma Rússia muito parecida com a de Tolstói em Guerra e Paz, o filme trata de todos os componentes filosóficos dos escritores russos, como o sentido da vida e sua ausência de valor, o significado de Deus, a relação com a morte, a verdadeira natureza do amor, etc., e isso sem perder a piada. O filme ainda faz vários trocadilhos com os romances mais importantes da literatura russa, e algumas alusões discretas.

Cena de Love and Death

Dito tudo isso, entretanto, ainda falta ressaltar aqui o caráter mais literário e mais russo dos filmes de Woody Allen. Um dos maiores escritores russos, chamado de pai do conto moderno, Anton Tchekhov, foi responsável por desenvolver uma técnica narrativa que girava em torno da ausência de um começo e de um final para as tramas. Basicamente o escritor acreditava que os personagens deveriam ser apresentados pela própria narrativa ao longo do desenlace dos acontecimentos, sem que fosse explicado piamente todos os pormenores do contexto e de cada personagem. Da mesma forma, sua ideia era, a grosso modo, deslocar o final para antes ou depois do ponto culminante da trama. Assim, onde um escritor comum terminaria seu conto, Tchekhov continuaria por mais tempo a história, ou a interromperia antes. Isso para dar a trama um ar mais natural, mais próximo da realidade, que é fluida e não polida para o palco.
Anton Tchekhov
De volta ao nosso tema principal, Allen adota abertamente essa técnica. Quem está acostumado a assistir seus filmes deve já ter se perguntado mais de uma vez: “Mas termina aí?” (vide Blue Jasmine). Campeão em interromper a história no clímax, filmes como A Rosa Purpura do Cairo, o clássico Manhattan e Anne Hall seguem essa estrutura, deixando no ar o possível final e promovendo uma verdadeira quebra de expectativa no publico. Por outro lado, ele também não oferece explicações para todos os acontecimentos, ou alguém consegue explicar como o protagonista de Meia-Noite em Paris viaja no tempo? O que também é um traço de Tchekhov, que era contra o excesso de explicações em uma trama.

No documentário Woody Allen de 2011, o cineasta citou vários escritores que o influenciaram, inclusive Tchekhov, Dostoievski e Tolstói. Claro, as relações de estrutura aqui propostos podem ser – ainda que seja improvável – coincidência, mas não seria de se estranhar que um dos maiores diretores e escritores modernos se utilize justamente da técnica de um dos maiores escritores do passado. E se você não leu esses caras e não viu os filmes do Allen, acredite, você não sabe o que é viver. Rs. Em todo caso, assim como os grandes escritores aqui sitados, Allen é um profundo observador e analista de seu tempo, e seus filmes são um retrato da psicologia do homem moderno. 



Melhor filme de Woody Allen na minha opinião

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Um retrato da morte – resenha de Homem comum de Philip Roth



A perspectiva da morte pode ser muitos, como diria Elias Canetti, o motivador da vida, mas, entretanto, porém, todavia, para a geração de escritores americanos judeus que despontaram ao longo do século XX, como o cineasta Woody Allen, e o romancista Philip Roth, a morte é motivo de muita angústia. A perspectiva de morrer é, antes de mais nada, um motivo de letargia. E é justamente essa imagem da morte que Philip Roth aborda em um de seus melhores romances do fim de sua carreira, Homem comum (Cia. das Letras, 2011).
O livro apresenta um personagem anônimo, que ao longo de sua vida vai descobrindo os significados e a presença da morte. Narrado em terceira pessoa e de forma não linear, o livro começa literalmente pelo fim, com o enterro do protagonista. Depois o livro segue mais ou menos linear desde a infância do (herói?) até sua velhice e, consequentemente, sua morte. Um ponto interessante a ser ressaltado é que a maior parte da narrativa não se passa na juventude, mas no começo e final da velhice do protagonista. Mesmo quando o livro descreve cenas memoráveis, como sua primeira internação para sua primeira cirurgia, e o medo infantil de se estar naquele lugar, é somente na velhice que o narrador consegue alcançar os melhores pontos do livro – vale lembrar que o próprio Roth já estava há muito tempo na terceira idade.
Philip Roth 
Mas talvez exista outro elemento fundamental na história além da morte: a solidão. É um livro que trata abertamente da solidão humana e da capacidade do homem moderno de dissolver os vínculos com as pessoas que lhe são mais queridas. Assim, ao longo da vida do protagonista assistimos na verdade um longo ato de morrer, e muito solitário. O narrador nos conta como ele trocou seu primeiro casamento precipitado por um casamento seguro e feliz, e este segundo casamento por um terceiro, ainda mais impulsivo e menos racional, até o ponto em que finalmente termina sozinho. Assistimos o ódio dos filhos do primeiro casamento, que logo os mantém longe do pai, e os problemas da vida da filha de seu segundo casamento, que como tal também se vê afastando-se do protagonista. Além de testemunharmos as constantes perdas dos familiares e dos amigos do (herói?) para a morte, e o afastamento do irmão que tanto o amava devido ao simples fato de que a vida torna algumas pessoas – no caso o protagonista – alguém amargurado demais para conviver.
O trágico na obra, que não apresenta um conflito ou uma reviravolta como muitos estão acostumados em livros, é a aparente perda de sentidos que a vida nos impõe. O que amamos ou nos é tirado, ou é virado contra nós, e isso naturalmente, feito muitas vezes por nós mesmos, e muitas vezes conscientemente. A ideia da vida, na obra, é quase existencialista, no sentido que não há uma razão, nem um Deus, e a vida irá continuar, mesmo sem nós. É impossível ler esse livro e não ficar ao menos um pouco triste, sentindo no fundo do estomago aquele vazio impreenchível.

Em todo caso, é meu segundo livro de Philip Roth, e pela segunda vez ele me cativou completamente, dessa vez sem os exageros sexuais de O complexo de Portnóy, mas de uma forma tocante e leve, ainda que mergulhando no mais profundo e pesado tema da existência humana. 

quinta-feira, 29 de maio de 2014

LITERATURA SEM FRONTEIRAS: TRAMAS FICCIONAIS CONTEMPORÂNEAS



Era uma vez, há muitos e muitos anos atrás, uma espécie que a ciência decidiu chamar de “Homo Sapiens” (a denominação vem do latim e significa “homem sábio”). Essa espécie, assim como nos relata o fabuloso Wikipédia, tem o cérebro extremamente desenvolvido com inúmeras capacidades como: raciocínio abstrato, a linguagem, a introspecção e resolução de problemas.
            Mas não é só isso...
            Essa espécie (cujo os valores ainda são questionáveis, mas tudo bem, não é essa a discussão de hoje) sempre possuiu uma necessidade advinda de uma sensibilidade de se fazer comunicar, interagir e........... FINGIR.
            Para uma tentativa de atingir essa satisfação o homem sempre recorreu ao Fictus (Ficção). Melhor esclarecendo, o “Homo Fictus” sempre existiu, o homem desde os primórdios se revestiu da habilidade de transfigurar a realidade em ficção, ou como preferem os mais utópicos, fantasia. (Só lembrando, sem um maior compromisso de esmiuçar o assunto, que a ficção por muitos anos possuiu também a função da ciência).
            Considerando que estamos falando de uma época absolutamente remota, levamos em consideração a inexistência da escrita (apesar de não descartarmos a hipótese de as imagens ser uma habilidade de escrita comunicacional). A forma de compartilhar as histórias ficcionais era feita, privilegiadamente, através da modalidade oral. Nesse caso, A MÍDIA ERA O PRÓPRIO HOMEM.
            Pecaríamos abundantemente se afirmássemos que a prática oral de contação de histórias não envolve um trabalho estético. Existe toda uma preocupação que vai desde a postura do contador à entonação de voz.   Mas a questão da contação de histórias já está, ao meu ver, muito bem resolvida e legitimada enquanto uma prática literária. A questão que pretendo esboçar nessa pequena discussão diz respeito às novas demandas comunicacionais, mais especificamente, as que apresentam em sua composição a presença da narrativa ficcional e propor, dessa forma, uma reflexão sobre uma visível afinidade dessas narrativas emergentes com a Literatura.
            Um primeiro, e mais difícil dos passos, seria estabelecer um conceito único, concreto, absoluto, autônomo e (blá, blá, blá) para a Literatura.  E isso, já adiantando, é tarefa impossível, ou no mínimo, falha. Até porque a literatura é um processo subjetivo que desrespeita paradigmas. Afirmar com toda autoridade que “Literatura é a arte da palavra” não me convence, pois não se especifica se essa palavra é impressa, digitalizada, desenhada ou falada. Alguém teria a coragem de rotular a Literatura como “A arte da palavra impressa”?
            Se assim for feito, vamos dizendo adeus em garantir que os contos de fadas são literatura, uma vez que se nasceram da tradição oral...
            Eu prefiro, ao invés disso, dizer que a Literatura é uma narrativa, essencialmente ficcional (construída a partir da linguagem verbal) capaz de transfigurar a realidade em ficção e provocar no receptor a maravilhosa “catarse” ao passo em que o permite uma aprendizagem (seja de uma cultura diferente, épocas distantes, valores pessoais, morais éticos e tal). Outro fator interessante é que a Literatura tem (não exclusivamente) a função de um registro de costumes (sociais, linguísticos, políticos, religioso e blá, blá, blá) pertinentes a uma determinada época.
            [Baseando nisso, faça uma reflexão silenciosa consigo mesmo tomando como objeto as narrativas contemporâneas.... ]
            Antes que eu me empolgue demais nesse assunto e comece a falar exclusivamente dos Best Sellers, me concentrarei no título dessa discussão. A Literatura do século XXI está sujeita às expectativas do leitor, ok. Mas além disso, está diretamente ligada a outras demandas artísticas, como por exemplo: cinema, telenovela, teatro e... Videogames.
            É muito comum, atualmente, entrarmos em uma livraria e encontrarmos um livro com a capa de um filme. É comum também abrirmos um site de portal e nos depararmos com a notícia de que o nosso livro predileto será adaptado para as telas. E tornou-se, igualmente comum, vermos um game exposto nas livrarias em adaptação impressa. Vivemos em uma cultura em que o game pode ir para o cinema e depois virar livro, ou então o filme vira game, ou o game vira livro e vice-versa (quase confuso não é ?! rsrsrs).
            Tudo isso faz parte de uma cultura, a qual o incrível Henry Jenkins chama de “Cultura da Convergência”. Lindíssimo termo...  
            Nas palavras de Jenkins (2009):
Por convergência, refiro-me ao fluxo de conteúdos através de múltiplas plataformas de mídia, à cooperação entre múltiplos mercados midiáticos e ao comportamento migratório dos públicos dos meios de comunicação, que vão a quase qualquer parte em busca das experiências de entretenimento que desejam. Convergência é uma palavra que consegue definir transformações tecnológicas, mercadológicas, culturais e sociais, dependendo de quem está falando e do que imaginam estar falando. [...] No mundo da convergência das mídias, toda história importante é contada, toda marca é vendida e todo consumidor é cortejado por múltiplas plataformas de mídia. (JENKINS, 2009, p. 29)
            
Essa cultura é fruto de um novo dilúvio....
            Sim, podem pensar no dilúvio bíblico. Pierre Lévy, dedicou em seu “Cibercultura” um tópico introdutório denominado “Dilúvios”. Nesse tópico, ele nos remete ao dilúvio ocorrido na época de Noé e que representou o fim de uma era e o começo de uma nova. O novo dilúvio, ocorrido há pouco tempo atrás, foi um dilúvio informacional, tecnológico. Fomos banhados por um imenso oceano de informações, advindas com a internet, e isso representou o início de uma nova era informacional e tecnológica.
            Desse novo dilúvio, surgiram novas ilhas...
            É importante observarmos que esse novo dilúvio não representou a morte de uma era, mas uma modificação da mesma. Não é segredo que muitos temeram que os E-books eliminariam as obras impressas, que o cinema e a televisão fariam as bibliotecas e livrarias serem extintas. Mas, visivelmente, não é verdade. As livrarias continuam mais cheias do que nunca. As novas formas de arte estão convergindo e não eliminando as antigas.             Bem, concluo que vocês possam se sentir um pouquinho enganados pelo título desse texto (rsrs). A intenção foi alertar para o fato de que as novas mídias possuem traços da Literatura. Isso não quer dizer que deveríamos analisar os Videogames com o instrumental teórico da Literatura (isso seria colocar um bolo quadrado em uma forma redonda). Também não estou afirmando com todas as palavras que os Videogames são Literatura. Mas podemos sim, considerar os games como uma nova forma de narrativa ficcional.
            Cabe, portanto, a Literatura dar conta de formular um novo instrumental teórico capaz de atender as provocações da arte.
            Espero, no próximo texto, poder compartilhar informações mais específicas.

            Até a próxima...

- Mario Lousada
Mestrando em Teoria da Literatura UEM

Referências
CANCLINI, N.G. Leitores, espectadores e internautas. Tradução de Ana Goldberger. São Paulo: Iluminuras, 2008.
COMPAGNON, A. O demônio da teoria. Literatura e senso comum. Tradução Cleonice Paes Barreto Mourão e Consuelo Fortes Santiago. Belo Horizonte: UFMG, 2006.
JENKINS, H. Cultura da convergência. Tradução de Susana Alexandria.
São Paulo: Aleph, 2009
.
LÉVY, P. Cibercultura. Tradução de Carlos Irineu da Costa. São Paulo:
Editora 34, 1999.



A origem dos monstros – resenha de O Horror de Dunwich de H. P. Lovecraft


Todas as cidades são assombradas por histórias macabras: crimes horríveis, incesto, monstruosidades sobrenaturais que supostamente habitam o lugar; mas a cidade de Dunwich é aparentemente muito mais maligna que qualquer outro lugar da terra. Marcada pela tradição das famílias mais antigas de dormirem com membros da própria família, não raramente irmãos ou primos, a cidade é assombrada por tipos bastante bizarros. E o tipo mais sinistro é a família de Whateley. Os Whateley sempre estiveram envolvidos em todo tipo de comentários macabros: bruxaria, pacto com o diabo, experiências estranhas; e quando o casal tiveram um filho que pouco se parece com um humano, esses rumores começaram a ganhar força. A criança, Wilbur, macabra cresce de forma impossível: com menos de 10 anos aparenta três vezes essa idade. Seu corpo é hediondo, de formas estranhas, pouco natural. Sua voz é gutural, de uma maneira que não lembra em nada uma voz humana.
O monstro no Sótão
Acompanhando tudo isso outro fato estranho: o gado da família começa a desaparecer de forma inexplicável, e o patriarca da casa continua a reformar e ampliar a parte de cima da casa de um modo suspeito, e estranhos barulhos que escapam do sótão. Estranhos assassinatos começam a ocorrer na cidade. Primeiro animais, cachorros. Depois pessoas. E as primeiras vítimas são os pais do estranho Wilbur, o garotinho com cara de bode que cresce em uma velocidade absurda. E enquanto Wilbur se torna cada vez maior, ele procura pelo mundo livros estranho de magia negra e história apócrifa. E é essa obsessão o curador de uma biblioteca de uma importante universidade americana, o Dr. Armitage a desconfiar que existe algo errado com o rapaz, e um perigo eminente se aproxima. O que ele não imagina, é que trata-se de um perigo que pode destruir a humanidade, envolvendo coisas mais antigas que o homem, e seres mais medonhos que a mera imaginação.
Howard Phillips Lovecraft
É nesse universo de sombras, mistério, terror e demônios que H. P. Lovecraft leva o leitor nessa pequena obra prima que é O horror em Dunwich (Hedra, 2012). Pequena porque a história em si tem em torno de cinquenta páginas, mas o universo que Lovecraft criou é imenso, tão grande quanto a própria eternidade. E o poder de narração do autor norte americano é tão forte que ele arrebata o leitor de onde quer que este esteja e transporta até o sombrio e assustador interior dos Estados Unidos. Está é uma combinação de folclore, com mitos milenares, amarrados por uma prosa perfeita. Não existe enrolação, e o terror se dá pelos seus elementos mais clássicos: o desconhecido, as sombras, os silêncios, os sons estranhos, os acontecimentos inexplicados.

Esse foi meu primeiro contato com Lovecraft, mas o nome já era muito conhecido. O próprio Stephen King fala muito do autor, e o Lovecraft escreveu um dos primeiros ensaios sobre literatura fantástica e de terror. Cada página do livro me prendeu, e me fez querer ler mais coisas sobre o autor, que aparentemente escreveu mais obras curtas que longas. Em todo caso, nenhum fã de terror é fã de verdade sem ler um pouco de Lovecraft.