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quarta-feira, 9 de julho de 2014

O Que Woody Allen E A Literatura Russa Têm Em Comum?

 
Woody Allen

A primeira coisa que alguns leitores podem estranhar é a relação entre uma personalidade do cinema com um blog de literatura. E embora exista uma discussão bem antiga e reconhecida sobre a proximidade entre as duas artes (cinema e literatura), com estudos e teses bem interessantes (inclusive a que estamos prestes a lançar, rs), no caso do cineasta americano essa relação é bem mais próxima. Escritor por vocação, Allen começou sua carreira como roteirista, a qual continua até hoje, muito mais reconhecida, claro, e, além de suas contribuições escritas para o cinema, também conta com vários livros publicados, entre contos, crônicas e até peças para o teatro. Assim, nem dá para pensar muito longe das belas letras a obra do comediante mais trágico dos EUA. Entretanto, e é aqui que começamos nossa análise, existe mais em comum entre Woody Allen e Dostoiévski, que entre o cineasta e Ingmar Bergman, que é um dos diretores mais apreciados por Allen.
Antes de continuar, contudo, devo confessar que este que vos fala é um tremendo fã desse judeu neurótico, e talvez eu acabe dando as observações que eu faça algum valor demasiado, mas vamos lá.
Em 2011, Woody Allen em um documentário sobre sua vida falou sobre certas influências literárias, em destaque especial para a literatura russa, o que eu já havia constatado. Afinal, quem não sentiu um deja vu em Mach Point (2005) quando dezenas de alusões diretas e indiretas à Crime e Castigo começaram a saltar da tela? A ideia do crime enquanto clímax máximo da narrativa, e as complicações ideológicas já haviam sido inclusive abordadas em outros filmes do diretor. 
Um deles foi o filme Crimes e Pecados, de 1989, com uma problemática muito parecida com a do filme de 2005, mas uma abordagem muito mais psicológica, quase freudiana. O interessante é que, diferente do grande autor russo, o cineasta parece bem menos esperançoso na consciência e na redenção humana. É quase uma confissão de desilusão, repleto de uma insatisfação existencial que beira o vazio. Outra referência pode ser encontrada no filme O Sonho de Cassandra, de 2007,  com uma trama em torno de dois irmãos muito diferentes que se envolvem em um conflito com desenlace trágico, bem ao estilo Irmãos Karamazov.
Entretanto é em outro clássico, A Última Noite De Boris Grushenko, ou apenas Love And Death, no original em inglês, que a relação com a literatura fica mais evidente. Comédia com um alto teor pastelonico ainda da primeira fase do diretor, do ano de 1975, o filme é uma sátira dos romances russos do século XIX. Ambientado em uma Rússia muito parecida com a de Tolstói em Guerra e Paz, o filme trata de todos os componentes filosóficos dos escritores russos, como o sentido da vida e sua ausência de valor, o significado de Deus, a relação com a morte, a verdadeira natureza do amor, etc., e isso sem perder a piada. O filme ainda faz vários trocadilhos com os romances mais importantes da literatura russa, e algumas alusões discretas.

Cena de Love and Death

Dito tudo isso, entretanto, ainda falta ressaltar aqui o caráter mais literário e mais russo dos filmes de Woody Allen. Um dos maiores escritores russos, chamado de pai do conto moderno, Anton Tchekhov, foi responsável por desenvolver uma técnica narrativa que girava em torno da ausência de um começo e de um final para as tramas. Basicamente o escritor acreditava que os personagens deveriam ser apresentados pela própria narrativa ao longo do desenlace dos acontecimentos, sem que fosse explicado piamente todos os pormenores do contexto e de cada personagem. Da mesma forma, sua ideia era, a grosso modo, deslocar o final para antes ou depois do ponto culminante da trama. Assim, onde um escritor comum terminaria seu conto, Tchekhov continuaria por mais tempo a história, ou a interromperia antes. Isso para dar a trama um ar mais natural, mais próximo da realidade, que é fluida e não polida para o palco.
Anton Tchekhov
De volta ao nosso tema principal, Allen adota abertamente essa técnica. Quem está acostumado a assistir seus filmes deve já ter se perguntado mais de uma vez: “Mas termina aí?” (vide Blue Jasmine). Campeão em interromper a história no clímax, filmes como A Rosa Purpura do Cairo, o clássico Manhattan e Anne Hall seguem essa estrutura, deixando no ar o possível final e promovendo uma verdadeira quebra de expectativa no publico. Por outro lado, ele também não oferece explicações para todos os acontecimentos, ou alguém consegue explicar como o protagonista de Meia-Noite em Paris viaja no tempo? O que também é um traço de Tchekhov, que era contra o excesso de explicações em uma trama.

No documentário Woody Allen de 2011, o cineasta citou vários escritores que o influenciaram, inclusive Tchekhov, Dostoievski e Tolstói. Claro, as relações de estrutura aqui propostos podem ser – ainda que seja improvável – coincidência, mas não seria de se estranhar que um dos maiores diretores e escritores modernos se utilize justamente da técnica de um dos maiores escritores do passado. E se você não leu esses caras e não viu os filmes do Allen, acredite, você não sabe o que é viver. Rs. Em todo caso, assim como os grandes escritores aqui sitados, Allen é um profundo observador e analista de seu tempo, e seus filmes são um retrato da psicologia do homem moderno. 



Melhor filme de Woody Allen na minha opinião

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Um conto russo


Existe uma expressão muito comum em literatura que se refere a algo com um forte teor de sofrimento dramático como “um romance russo”. Isso porque nenhuma outra literatura captou tão bem as nuances do sofrimento como a literatura russa, com sua força aterradora e sua sutiliza fria. Mas, como Anton Tchekhov nunca escreveu um romance, vamos adaptar o termo recorrente para o estilo no qual Tchekhov foi um mestre: o conto.
Em O assassinato e outras histórias (Editora Abril, 2010), todos os elementos que consagraram o autor russo como um dos mais significativos escritores da literatura mundial veio à tona. A seleção de história (feita pelo tradutor), remete à última fase da produção do autor russo, por isso os contos são mais longos e mais pausados. Apesar de mais extensos que os trabalhos da época de A dama do cachorrinho que lhe imortalizaram, os contos desta antologia não fogem em absoluto da complexa estrutura estética de um original tchekhoviano. Com vozes que invocam o tempo do autor, ele desfila uma série de dramas sociais, que vão desde os pequenos burgueses, como no conto que abre a coletânea, O professor de letras, até as classes mais baixas, os mujiques, nos contos mais terríveis e ao mesmo tempo belos, tal qual o último conto No fundo do barranco.
Anton Tchekhov
É importante dizer que Tchekhov não é um autor de histórias prontas. Seus enredos vão sendo trabalhados sutilmente durante o desenvolver da trama, e com isso Tchekhov “sugere” muitas possibilidades subtendidas na trama. Daí a textura dos contos no melhor sentido da expressão. Histórias com personagens complexas, que vão se revelando e modificando aos poucos, ou, quando não sofrem essas mudanças, são estraçalhadas pelo peso da realidade. É preciso ler cada conto por camadas, e ir retirando seus sentidos aos poucos, buscando aquilo que o autor ocultou em seu corpo. Somente assim, toda ironia, toda crítica social e toda poética tchekhoviana é revelada ao leitor. Muitas vezes, como em O assassinato, que conta a história de dois primos, sendo que um perdeu tudo por causa de uma amante, mas o outro é um espertalhão que retêm a herança de ambos, que aos poucos vão interferindo nas vidas um do outro, até se tornarem insuportáveis as raias da loucura, o narrador estende a narração para depois que o conflito principal terminou. Assim, tendo ocorrido o clímax, a história ainda persiste, revelando a sua verdadeira face.
Tchekhov partilhou da mesma simpatia pelos “humilhados e ofendidos” que Dostoievski, e escreveu muito sobre isso, tanto dentro quanto fora da ficção. Deste modo, um dos pontos que mais chamam atenção em seu trabalho, é que ele foi um escritor profundamente engajado com as questões sociais, em um período que antecede ao conceito de literatura engajada, que só nasceria próximo a metade do século XX com Sartre.
Assim, Tchekhov foi um homem a frente de seu tempo, e mais que isso, foi responsável por influenciar toda literatura do século que viria, ao ponto de ser chamado como “o pai do conto moderno”, por muitos autores. Alguns, como nosso Rubem Fonseca, não escondem sua influência em sua formação como leitores e posteriormente como escritores. Leitura obrigatória, O assassinato e outas histórias é um dos livros mais densos, ainda que possua uma narrativa leve, mais sutil, belo e terrível, ao mesmo tempo que faz o leitor se apaixonar desde seu primeiro conto, que já foi escrito.


Capa edição Cosac Naify: