segunda-feira, 5 de agosto de 2013

O casamento da chapeuzinho



Era uma vez, há não tanto tempo atrás, uma casa que ficava no meio de uma velha floresta, cercada por uma campina que era como um tapete vivo e um jardim com um manto colorido de flores. A casa, um sobrado amarelo, erguia-se até a copa das árvores mais baixas, e dela, uma música muito alta ecoava por todo silêncio da floresta. Talvez por isso quase não se via animais ao redor da casa, a exceção dos três grandes pitbulls que dormiam preguiçosamente na varanda. O som agudo de guitarras elétricas perfurava a paz da floresta, enquanto a moradora da casa divertia-se surfando pela internet.
A velhinha que morava sozinha naquela casa, gostava desses dias de paz e rock’in’roll, sentada na grande poltrona de couro, os pés levantados em uma pilha de almofadas e uma xícara de chá, cheia até a borda com um gelado suco de limão batizado com vodka repousada ao seu lado. No colo, o notebook aberto visualizava sua página no Facebook. Com um suspiro a boa velhinha disse:
– Que saudades da minha neta, a chapeuzinho vermelho. Bem que ela poderia me mandar ao menos um recado pelo Face. O que será que ela anda fazendo?
Nesse momento o celular em repouso ao lado da xícara na mesa começou a tocar desesperadamente. Com um movimento rápido a boa velhinha lhe atendeu.
– Alô.
– Mamãe, sou eu!
– Querida! Há quanto tempo... Acredita que eu estava agora mesmo olhando um site de compras e pensei em você quando eu vi uma porcelana...
– Mamãe, escute! Não temos tempo para isso! – Interrompeu uma voz desesperada do outro lado, as palavras entrecortadas por uma respiração irregular.
– O que aconteceu querida? – Indagou a velhinha preocupada.
– A chapeuzinho, mamãe... ela... ela... ó meu Deus! Fugiu com o lobo mau!
– O QUÊ?! – Gritou a vovó pondo-se em pé. – Como assim?
– Ela fugiu! Simplesmente sumiu! Levou todas as roupas dela. Eu sabia que aquele baterista daquela banda punk, Os Lobos Maus, era uma má influência.
– Mas como isso aconteceu?
– Eu não sei! Mas ela deixou um bilhete dizendo que ia para a Argentina casar com o lobo!
– Casar? Minha netinha?
– Ao certo aquele cafajeste iludiu a pobrezinha! Minha filha nunca fugiria para se casar por pensamento próprio.
– Tem razão! Algo precisa ser feito. Deixe comigo minha querida. Eu trarei nossa chapeuzinho de volta. – E ao dizer isso desligou o celular.
A vovozinha pôs-se de pé com um salto, e correu até as escadas para o segundo andar, subindo três degraus de cada vez. No corredor, atirou-se para dentro de seu quarto e puxou um pesado baú de debaixo da cama. Abriu-o e tirou uma pesada jaqueta de couro negra, que vestiu por cima do pijama rosa de bolinhas vermelhas. Tirou um par de luvas de couro, e também as calçou. Foi até o banheiro, e com um soco quebrou o espelho da pia, revelando um compartimento secreto onde guardava um grande rifle calibre 50. Pendurou o rifle nas costas e desceu novamente saltando cinco degraus de uma vez as escadas, vestindo a jaqueta sobre o pijama e fazendo um barulho engraçado cada vez que suas pantufas de sapinho pisavam no chão. Antes de sair de casa, todavia, parou e trocou os óculos de leitura que usava por grandes óculos escuros com aro de metal. Assim, vestida para a caça, foi até a garagem, onde sua velha moto, uma Harley Davidson, lhe esperava. Colocou o capacete por cima do bob que usava e montou-a.
– Vou mostrar para esse vira-lata o que os anos 70 me ensinaram. – Disse, tirando um enorme charuto do bolso da jaqueta e o acendendo, levou o charuto aos lábios e deu uma longa baforada, soltando um circulo de fumaça. – Pronto ou não cachorrinho, aí vou eu.
Acelerou, então, sua Harley, fazendo os pneus cantarem e empinando a moto sobre uma única roda, arrebentou a porta da garagem e voou pela estrada.
– Irrá! Como no Woodstock! – Bradou enquanto o vento batia em sua face, fazendo a dentadura vibrar.
Ela pilotou furiosamente, acelerando até suas rodas levitarem, sem diminuir a marcha uma única vez. Ultrapassou vários caminhões, alguns motociclistas que tentaram tirar um racha com ela, três carros de corrida e o trem bala, até que finalmente chegou à Argentina.
Enquanto isso, na capela em que aconteceria o casamento, um desajeito lobo mau, com cabelo moicano, vestindo um terno rasgado nas mangas e com as palavras Cachorro mau tatuado no braço esquerdo, esperava desajeitado, mas com um enorme sorriso no rosto a entrada de sua amada pela nave da igreja. De repente, um trio de guitarristas começaram a tocar a marcha nupcial, e uma jovem vestindo um longo e maravilhoso vestido branco, envolto por seu enorme véu vermelho adentrou a igreja. Todos os convidados, basicamente os membros da banda do lobo, o dono do bar de rock que eles frequentavam e as amigas das lideres de torcida da chapeuzinho, levantaram-se para ver a bela menina entrando. Nesse momento, o dono do bar, um homem muito gordo, careca, com uma barbicha que crescia até o peito, óculos escuros e uma caveira tatuada em cada braço começou a chorar, assoando o nariz no cabelo cumprido do guitarrista da banda do lobo.
Ao chegar ao altar, o lobo tomou a mão de sua noiva, e ambos voltaram-se para o mestre de cerimônias, um anão com cabelo comprido vermelho, unhas grandes pintadas de verde, e uma beca toda ornamentada com pregos. Seguiu-se o sermão emocionante, que comparava o amor à duas motos que correm pela estrada, e o casamento à um show do Pink Floyd, fazendo todo público chorar de emoção.
           – E agora, finalmente – Disse o anão. – Lobo mau, aceita essa bela, linda, maravilhosa, doce, sexy, sarada, poderosa, e radical, jovem, a chapeuzinho, como sua legitima esposa?
            – Auuuuuuuuuuuu! – Assentiu o lobo.
– E você, chapeuzinho, aceita esse pulguento, fedorento, raivoso, desempregado, inútil, e não vacinado, como seu legitimo esposo?
          – Aceito. - Respondeu a jovem encantada.
          – Então, se houver alguém que seja contra este casamento, que fale agora ou cale-se até o divórcio.
         Nesse instante as portas da igreja são arrombadas pela vovó, que adentra a nave da igreja, empinando a moto, e fazendo várias manobras pelo corredor. Ela da uma rabiada, e diz:
        – Eu tenho!
        – Vovó! – Diz chapeuzinho, ao mesmo tempo feliz e surpresa. – O que faz aqui?
        – Não posso permitir que minha única neta se case com esse cão sarnento.
        – Ei, velhota, cão sarnento? Qual é? Eu também tenho sentimentos, sabia?
      – Você vai sentir o meu pé no seu traseiro, vira-lata imundo. – Diz a vovó, colocando todo seu charuto dentro da boca e o mastigando inteiro, engolindo-o por fim. – Vem brincar com a vovó, vem...
       O lobo começa a rir freneticamente, enquanto pobre mocinha diz aos prantos
       – Não vovó, você não entende... Eu amo o lobo mau! 
       – Quieta mocinha, você é jovem demais para saber o que é o amor.
       – Tudo bem cachorrinha. – Intrometeu-se o lobo mau. – Eu resolvo isso em um segundo. – Ele tirou o paletó, revelando o peito musculoso e muito peludo. – Cai dentro velhota.
       – Ora, cão atrevido, como disse John Lennon: “Imagine a minha mão no seu pescoço.”
   E saltou sobre o lobo, pondo-se a surrar-lhe, para espanto do poderoso lobo, que viu-se completamente impotente contra a velhinha que lhe desferia centenas de golpes de Kung Fu. O lobo começou a gritar e ganir, enquanto o som de seus ossos quebrados enchiam a igreja. Todos observavam assustados, tremendo de medo da poderosa velhinha. Por sua vez, a pobre chapeuzinho, assistia a cena horrorizada, sem saber se protegia o amado ou acalmava a vovó. Somente quando a vovó começou a sentir-se muito cansada e o lobo já ia coberto de sangue que ela sacou seu rifle e esbaforida mirou-lhe entre os olhos.
     – Hasta La vista, lobinho. – Disse pausadamente, de tão cansada.
    Mas nesse instante, devido sua idade avançada e o tremendo esforço que colocou em surrar o lobo mau, seu coração já não tão jovem teve um infarto e ela tombou para trás. Desesperada a chapeuzinho acudiu a vovó e em poucos instantes ela estava a caminho do hospital. Todavia, como o lobo já estava muito ferido, o casamento foi adiado até o dia seguinte.
   No outro dia, os convidados estavam novamente em seus lugares, as guitarras soavam românticas outra vez, e o lobo estava em seu lugar, apoiado em muletas e todo enfaixado esperando pela encantadora chapeuzinho que vinha em passos lentos pelo corredor da igreja.

  Novamente, o anão fez seu discurso, quando outra vez as portas da igreja foram abertas com violência, dessa vez por um chute, e uma pálida vovó, carregando um tanque de oxigênio em uma mão, e o soro na outra, adentrou a igreja furiosa, agora vestindo o pijama do hospital e sentindo uma leve brisa bater-lhe por trás.
  – Eu voltei! – Disse, saltando novamente sobre o lobo, que começou a gritar de pânico assim que viu a velhinha, que agora batia-lhe com o tanque de oxigênio.
Entretanto, dessa vez, a chapeuzinho, temendo o pior, pulou sobre o amado, antes que a vovó pudesse surrá-lo ainda mais.
       – Sai daí chapeuzinho. Não posso esfolar esse lobo maldito com você na frente, meu bem. – Falou, tranquilamente a vovó.
       – Nunca! A senhora não entende, eu amo o lobo mau. Se ele precisa morrer, eu morrerei com ele! – Respondeu veementemente.
      – Você morreria por causa desse vira-lata?
      – Sim! Pois mesmo sem ter pedigree, esse cachorro carregou meu coração.
      Diante dessas palavras, e dos olhos marejados de lágrimas da netinha, a doce velhinha sentiu-se ainda mais frágil do que seu estado lhe permitia ser e baixou o tanque de oxigênio.
      – Tem certeza, meu amor? – Perguntou a vovó.
      – Com cada pulga do meu corpo, vovó. – Respondeu a neta, coçando-se por causa das pulgas que pegara do lobo mau.
      – Como posso eu, uma simples dona de casa anarquista e anti-governo, ser contra o amor de uma jovem? Ainda mais da neta que amo tanto?
    – Vovó! – Disse a neta emocionada.
    – Chapeuzinho! – Respondeu a vovó vibrando.
    – Vovó! – Repetiu a neta ainda mais emocionada.
    – Chapeuzinho! – Disse novamente a vovó agora tremendo. – Acho que vou ter outro infarto. – E desmaiou.
   Como a vovó e o lobo estavam agora muito feridos, o casamento novamente foi adiado até o dia seguinte. Mas no outro dia, a igreja novamente cheia, o anão pronto para fazer o seu discurso, um lobo mau em cadeira de rodas em seu lugar, e ao som das guitarras elétricas a doce chapeuzinho vermelho entrou na igreja, sendo conduzida pelo braço por sua avó, que agora vestia um terno roxo, que ia até o chão.

    A cerimônia foi linda, e ao final, quando os noivos beijaram-se, todos na igreja começaram a chorar, incluindo a vovó, que como presente de casamento dera para a neta uma passagem para os dois para uma ilha tropical de nudismo na lua de mel.
     Algum tempo depois, estava novamente a vovó em sua casa, sentada em sua poltrona e surfando na internet quando entrou no Twitter de sua neta e leu o quanto ela estava feliz em sua lua de mel na ilha de nudismo, com uma nota que agradecia em especial sua doce e frágil vovó.
     – Ah, como é bom ser jovem, lembra meus anos de revolução francesa. – Disse saudosista a vovó.
E twitaram felizes para sempre.



Por: André Moreira



sábado, 3 de agosto de 2013

Crônica: O Psicopata da FAFIPA, ou Psicose Social - Uma História Real



Aos profissionais da moda, com licença, mas é preciso dizer que o Medo é uma forte tendência para a próxima estação. E nem se trata das velhas fobias que a sociedade moderna coleciona aos montes no armário, ou da constante tensão provocada pela irradiação progressiva da violência. Trata-se de algo mais focalizado, de um Medo refinado, direcionado e louvado pelos meios de comunicações, que vem e que passa, como as estações das frutas. Trata-se das tendências à paranoia que emergem e desaparecem ao menos duas vezes ao ano, sempre diferentes, sempre terríveis, sempre proclamando o final dos tempos, o apocalipse, a decadência iminente da sociedade, a falta de Jesus no coração e todos os males causados pela escassez de sexo. E pronto! Lá vão todos os especialistas das sortes mais obscuras desfilarem sua verborragia prolixa sobre o problema generalizado, ao fundo musical a lá Hitchcock, terminando em um crescente lacrimoso com as vítimas sobreviventes do terror. Não basta serem vítimas ou algozes, é preciso se tornar celebridade!
E nessa indústria que nunca dorme, a última tendência começou em uma escola no Rio de Janeiro: um jovem armado atirou à sangue frio em vários amiguinhos, provocando várias mortes. Ó, céus! Que terrível! A nação está chocada! É preciso fazer todo um reality show sobre a catástrofe, 24 horas inteiras de cobertura imparcial, ao som de músicas tristes, apelos chorosos de mães em busca de justiça e a foto do meliante elevada às proporções do macabro: “olhe esse cara, com certeza ele é um assassino!”. Tragam os especialistas para discutirem o caso. Revivam a catástrofe de novo e de novo e de novo. Vejam, está é a melhor reconstrução da tragédia. Nova palavra nacional favorita: tragédia. No facebook já começam as correntes, fotos do assassino, pedidos de oração para as famílias das vítimas, convites ao criminoso para visitar Brasília. No rádio o top 10 é a biografia detalhada do assassino. Que tragédia, que tragédia! Só parem de pensar sobre isso no horário da novela. Mas, no outro canal, o ancora adverte: “as cenas que se seguem são chocantes, crianças e pessoas com problemas cardíacos devem mudar de canal.” Um gesto altruísta e desinteressado, que por coincidência eleva o ibope aos céus. Mas voltemos aos estilistas do Medo, os especialistas convocados para os programas “família” da manha: o psicólogo, o psiquiatra, o policial, o professor, o padre, o pai de santo, o representante do movimento gay no Amazonas. Todos com opiniões fortes para compartilhar e ideias batidas totalmente inéditas, seguida de um minucioso retrato da psique de um psicopata: nova palavra nacional favorita, psicopata! E de repente, vagas imensas da massa do público se tornam, da noite para o dia, especialistas em psicopatia. Os professores reconhecem ao menos dois psicopatas por cada turma. O açougueiro reconhece pelo menos metade dos seus fregueses. Os vereadores decidem não mais fazerem sessões na câmara, porque com certeza os representantes da oposição são psicopatas!
Mas vejam o que aconteceu em uma certa universidade do interior do estado, uma tal de Fafipa. Ouvem-se gritos, certa movimentação, a policia é chamada: ora, alguém morreu? Não! Infelizmente ainda não, mas pior! Um psicopata foi identificado pelas centenas de especialistas formados pela televisão.
Lá vai ele, marchando pelos corredores olhando para o chão e em passos fortes e rápidos, ostentando sua barba assustadora e um penteado ao estilo Renato Russo. Como sabem que ele é psicopata? Você não soube? Minha prima disse que uma colega de classe da irmã dela disse que a tia da sua cunhada disse que o namorado do irmão mais velho do vizinho, que faz Letras, viu na página do Orkut dele todo tipo de mensagens politicas e religiosas extremistas, dizendo que gostou do que aquele primeiro psicopata fez no Rio de Janeiro e que quer repetir na Fafipa! Só falta que exista uma comunidade só para psicopatas no Orkut: Psicopatas do Brasil. Mas você viu o Orkut dele, não, mas eu acredito na minha prima!
Agora é oficial, basta o psicopata da Fafipa sair aos corredores e todos os alunos, de tanto medo e por estarem completamente apavorados, correm até às portas de suas salas para verem-no passar. É ele, é ele, que medo!, que medo!. De repente começam os gritos. Uma mocinha linda e um pouco carente entra trêmula e ofegante, dizendo: “eu o vi.” Imediatamente se forma um grupo ao redor dela para perguntar detalhes, quando uma segunda mocinha linda e um pouco carente começa a chorar: “ele passou por mim, ele vai me matar!” O grupo instantaneamente se desloca da primeira mocinha linda e um pouco carente para a segunda. A primeira, ainda desolada e agora sem público começa a gritar e arrancar os cabelos inconsolável: “e se ele me matar?” O grupo volta correndo para ampará-la, quando a segunda subitamente desmaia!
E como ele faz para marcar as vítimas? Eis uma pergunta complexa, pois ele usa um método de possível inserção psicofísica de validação da inércia: ele esbarra em suas vítimas! Se você trombar com ele no corredor comece a orar à Deus, ao Buda, à Alá, aos orixás, ao Olimpo, porque você irá com toda certeza absoluta do universo morrer! Mas o pior só acontece por último: uma data é marcada na parede do banheiro masculino! Por dedos invisíveis como na bíblia? Não, de modo ainda mais impressionante: com errorex! E nessa data todos já sabem: é o dia da colheita! Ele virá armado até os dentes, com duas metralhadoras, um fuzil, vinte granadas e uma motosserra elétrica para matar todos os universitários!
Bastou isso para se iniciar a avalanche de pânico e temores coletivos: alguém deveria pesquisar isso, seria o Medo algo transmitido pelo ar? Enfim, já não se falava em outra coisa nos ônibus e grupos de alunos. Só no terrível psicopata – alguém sabe, por um acaso, como diabos ele se chama? – e na data fatídica onde suas vidas terminariam. Ninguém pareceu levar em conta que aquele psicopata, apesar de ser um psicopata, era um sujeito legal, que avisava suas vítimas sobre o dia do seu ataque para terem tempo assim de colocar suas coisas em ordem antes de deixar esse mundo. Mais do que isso, pensem a frustração do psicopata ao chegar no dia marcado e perceber que suas ovelhinhas haviam faltado. Com certeza ele sentaria no meio-fio do estacionamento, ainda vestindo seu arsenal e começaria a chorar: “Oh, Deus, eles são tão espertos! Bem que a minha mãe me disse para fazer Letras ao invés de matar pessoas...” A pressão se tornou tão grande que nem os professores querem pisar na universidade no dia marcado. Aula vaga em prol da vida! Isso que é humanitarismo.
Finalmente a data marcada chega e passa e, nenhuma morte acontece? Os alunos aliviados e profundamente decepcionados decidem voltar para suas aulas regulares. Nem 24 horas se passam e o terrível pesadelo do psicopata começa a esfriar. Mas esperem! Quem é aquele rapaz bonito no ponto de ônibus? Meu Deus, é o psicopata! Ele tirou a barba! E de repente, o terrível inimigo público número um recebe centenas de solicitações no Facebook. Ah!, bem que ele podia esbarrar em mim agora... Suspiram as mocinhas lindas e um pouco carente.

Mas enfim, a época dos psicopatas passou e agora a moda é queda de aviões. Então, abram seus guarda-chuvas e apertem bem o sinto, porque essa é uma moda que promete decolar! 
Seja como for, o que se podemos dizer desse mercado da moda? Voltemos essa noite em silêncio para casa Senhoras e Senhores, porque na passarela da sociedade, quem diria?!, até os psicopatas sofrem de bullying.

Por: André Moreira Felix

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Livros para se ler em um dia



Essa é uma teg que é (foi) muito popular nos canais literários do youtube e nos blogs sobre livros. Mas, como O Correio das Letras só nasceu agora viemos resgatar essa ideia (com um pouquinho de atraso, rs). Mas, acho ela bem pertinente, até porque, em plena geração 150 caracteres, o tempo para a leitura é tão fluido e curto que, a menos que o livro seja muito bom, dificilmente um leitor médio ficaria grudado em 800 páginas. (Ainda bem que existem os santos George R. R. Marin e o Stephen King, com seus livros quilométricos para dar uma equilibrada no mercado editorial de hoje em dia).
É bem verdade que é uma tendência da literatura contemporânea ser mais enxuta, e essa brevidade bem uma questão estética, que tudo tem haver com nosso tempo, o que faz com que as obras se enxuguem cada vez mais, ainda assim, essa “objetividade” toda não anula o mais importante de um livro: seu poder sobre o leitor.
As novas técnicas narrativas contam a história muitas vezes até pelo que deixam de contar, e sem os pensamentos prontos e os sentidos mastigados que antes enchiam os livros a boa literatura tem se condensado cada vez mais em pequenas obras.

O que se segue é uma pequena lista de sugestões com obras pequenas na forma, mas gigantes no conteúdo! (sim, eu sei, isso horrível), para quem tem pouco tempo, ou para quem apenas quer ter uma leitura mais rápida. Procuramos variar um pouco os assuntos, países de origem, época, etc. Literatura de um dia para todos os gostos:

01- A revolução dos bichos – George Orwell
Verdadeiro clássico moderno, concebido por um dos mais influentes escritores do século 20, "A Revolução dos Bichos" é uma fábula sobre o poder. Narra a insurreição dos animais de uma granja contra seus donos. Progressivamente, porém, a revolução degenera numa tirania ainda mais opressiva que a dos humanos Escrita em plena Segunda Guerra Mundial e publicada em 1945 depois de ter sido rejeitada por várias editoras, essa pequena narrativa causou desconforto ao satirizar ferozmente a ditadura stalinista numa época em que os soviéticos ainda eram aliados do Ocidente na luta contra o eixo nazifascista. De fato, são claras as referências: o despótico Napoleão seria Stálin, o banido Bola-de-Neve seria Trotsky, e os eventos políticos - expurgos, instituição de um estado policial, deturpação tendenciosa da História - mimetizam os que estavam em curso na União Soviética. Com o acirramento da Guerra Fria, as mesmas razões que causaram constrangimento na época de sua publicação levaram A revolução dos bichos a ser amplamente usada pelo Ocidente nas décadas seguintes como arma ideológica contra o comunismo. O próprio Orwell, adepto do socialismo e inimigo de qualquer forma de manipulação política, sentiu-se incomodado com a utilização de sua fábula como panfleto. 




02- A metamorfose – Franz Kafka
A Metamorfose é a mais célebre novela de Franz Kafka e uma das mais importantes de toda a história da literatura. O texto coloca o leitor diante de um caixeiro-viajante - o famoso Gregor Samsa - transformado em inseto monstruoso. A partir daí, a história é narrada com um realismo inesperado que associa o inverossímil e o senso de humor ao que é trágico, grotesco e cruel na condição humana - tudo no estilo transparente e perfeito desse mestre inconfundível da ficção universal. 







03- Secreções, excreções e desatinos – Rubem Fonseca
Rubem Fonseca apresenta um conjunto de contos em que a fisiologia do corpo humano se associa a desatinos da alma. São ao todo catorze contos. As personagens e/ou situações desta coletânea podem ser consideradas fora do comum. Entretanto, o tom dos narradores (quase sempre os protagonistas) é calmo, sereno, desapaixonado. Por mais estranhas que pareçam, as histórias são contadas como se não houvesse nelas nada de excepcional.





04- A Morte em Veneza – Thomas Mann
Publicado em 1912, A Morte em Veneza conta a estória do escritor alemão Gustav von Aschenbach, que vai passar férias em Veneza. Lá, apaixona-se platonicamente pelo jovem polonês Tadzio, de 14 anos, e passa os dias a admirá-lo. O livro praticamente traz considerações de Aschenbach sobre as dicotômicas beleza natural do jovem e a arte da escrita tão arduamente trabalhada por ele. Ou sobre juventude e velhice, sabedoria e ignorância, saúde e doença.




05- A Morte de Ivan Ilitch – Liev Tolstoi
Em agosto de 1883, duas semanas antes de falecer, o escritor russo Ivan Turguêniev escreveu a Tolstói: "Faz muito tempo que não lhe escrevo porque tenho estado e estou, literalmente, em meu leito de morte. Na realidade, escrevo apenas para lhe dizer que me sinto muito feliz por ter sido seu contemporâneo, e também para expressar-lhe minha última e mais sincera súplica. Meu amigo, volte para a literatura!". O pedido de Turguêniev alude ao fato de que Tolstói havia então abandonado a arte e renegado toda sua obra pregressa para se dedicar à vida espiritual. Embora não se possa dizer com certeza em que medida as palavras de Turguêniev repercutiram em Tolstói, é certo que A morte de Ivan Ilitch, publicada em 1886, foi a primeira obra literária que ele escreveu após seu retorno às letras mdash; e que se trata de um dos textos mais impressionantes de todos os tempos. Considerada por Nabokov uma das obras máximas da literatura russa mdash; e por muitos uma das mais perfeitas novelas já escritas mdash;, A morte de Ivan Ilitch ganha agora nova edição em língua portuguesa, com tradução e posfácio de Boris Schnaiderman, e, em apêndice, texto de Paulo Rónai sobre o autor e sua obra.


06- Os espiões – Luis Fernando Veríssimo
Luis Fernando Verissimo constrói, neste livro, uma alegoria híbrida de mitologia, humor e mistério. Ainda se curando da ressaca do final de semana, na manhã de uma terça-feira, o funcionário de uma pequena editora recebe um envelope branco, endereçado com letras de mãos trêmulas. Dentro, as primeiras páginas de um livro de confissões escrito por uma certa Ariadne, que promete contar sua história com um amante secreto e depois se suicidar. Atormentado por sonhos românticos, esse boêmio frustrado com seu casamento, e infeliz no trabalho, decide tomar uma atitude - descobrir quem é Ariadne e, se possível, salvá-la da morte anunciada. Na mitologia grega, ela ajuda Teseu a sair do labirinto. No entanto, o autor cria uma Ariadne ao contrário, que vai enfeitiçando o protagonista e seus amigos de bar, os espiões deste livro.



07- Invenção e memória – Lygia Fagundes Telles
Guardar momentos na caixa de sonha, e depois entreabri-la com as mãos do imaginário e da fantasia para mostrar o seu conteúdo, guardado com carinho, ao leitor. A descoberta é só prazer. Lygia ama tanto o sonho como a criação. São quinze histórias onde flashes da infância e da juventude ganham cores e sabores no processo de criação. A menina que descobre os mistérios da solidão em "Que se chama solidão" ou da morte - tema tão recorrente na obra da autora -, em "Suícidio na granja". Um amargo e profundo questionamento da maturidade do envelhecimento em "Se és capaz"; deliciosas fantasias adolecentes como "Dança com o anjo" e "Cinema Gato Preto". Invenção e memória, na evocação de cenas e estados de alma da infância e da adolescência, atinge um dos mais belos efeitos da obra da autora. Os desfechos surpreendentes provocam o imaginário do leitor e nos convidam a completar, a colocar um ponto final.



08- O estrangeiro – Albert Camus
"O Estrangeiro", tão popular porque, à parte ser a seca narrativa das desventuras de Meursault, condenado à morte por matar um árabe a troco de nada, é também a narrativa das desventuras de um homem do século XX. Uma autobiografia de todo mundo. Mersault leva uma vida banal; recebe, indiferentemente, a notícia da morte da mãe; comete o crime; é preso; julgado; tudo gratuito, sem sentido, apenas mais um homem arrastado pela correnteza da vida e da História.






09- Muitas vozes – Ferreira Gullar
Em “Muitas Vozes” (1999), Ferreira Gullar reúne a produção dos últimos doze anos e demonstra que recorta as cenas do cotidiano com reflexões agudas, traçando imagens ao mesmo tempo delicadas e provocadoras. Segundo o próprio autor, a fúria presente em todos os seus livros anteriores, neste está amainada. É um livro mais reflexivo, em que a temática da morte está muito presente, não como medo mas como reflexão. Ouve-se o eco de toda experiência do poeta acumulada ao longo de quase sete décadas. Foi preciso muita coisa passar: o exílio, depois a morte rondar perto, familiar e sem ênfase; os mortos restarem no abandono do chão impenetrável; o silêncio crescer dos ausentes ao cosmos.



10- A humilhação – Philip Roth
Aos 65 anos, Simon Axler, um renomado ator de teatro, sobe no palco e constata que não sabe mais atuar. De uma hora para outra toda sua autoconfiança se esvai, e ele perde a capacidade de interpretar os personagens que, ao longo de uma extensa carreira artística, haviam lhe trazido renome. A partir daí, sua vida entra numa espiral de perdas: a mulher vai embora, o público o abandona e seu agente não consegue convencê-lo a retomar o trabalho. Obcecado com a ideia do suicídio, Simon se interna numa clínica psiquiátrica.
No meio desse relato terrível de uma autoanulação inexplicável e apavorante, irrompe um enredo em sentido contrário. Simon se envolve numa relação passional com uma mulher mais jovem, homossexual, filha de um casal de atores que ele conheceu na juventude. Nasce daí um desejo erótico avassalador, um consolo para uma vida de privação, mas tão arriscado e aberrante que aponta não para o conforto e a gratificação, e sim para um desenlace ainda mais negro e chocante. 


11- Liquidação – Imre Kertész
B., um escritor húngaro, suicida-se e deixa como legado uma peça de teatro intitulada Liquidação. Um dos personagens do manuscrito é o editor de B., Amargo, o protagonista deste desconcertante romance do ganhador do Premio Nobel de Literatura de 2002, Irme Kerstész. É Amargo que, analisando a peça e investigando as causas mais profundas de um gesto tão radical.
Não espere aqui as convenções e peripécias do gênero policial. A investigação de Amargo esta menos preocupada com os fatos - com a possível existência de outro manuscrito obscuro - do que com suas ressonâncias éticas e filosóficas. B. é uma das poucas crianças nascidas em Auschwitz, e o suicídio remete á condição individual possível em meio à armadilha histórica: assim como a Hungria e o próprio Kerstesz, o personagem passou a maior parte do século XX dividindo entre o totalitarismo de Hitler e o de Stalin.




12- Herdando uma biblioteca – Miguel Sanches Neto
Coleção de crônicas onde Miguel Sanches Neto conversa com o leitor sobre seu processo de formação de leitura, bem como a vida e as desventuras de um crítico literário.









13- Pulp – Charles Bukovwski
A saga de Nick Belane poderia até ser igual a de tantos outros detetives de se gunda categoria que perambulam pelas largas ruas de Los Angeles. Mas aqui, mulheres inacreditáveis cruzam pernas compridas e falam aos sussurros, principalmente uma que atende pelo nome de Dona Morte. Como nos velhos livros policiais de papel vagabundo, subliteratura pura, a quem Charles Bukowski dedica solenemente Pulp.



                             
14- O velho e o mar - Ernest Hemingwa
Essa é a história de um homem que convive com a solidão do alto-mar, com seus sonhos e pensamentos, sua luta pela sobrevivência e sua inabalável confiança na vida. Esse é o fio do enredo - fio tenso como o que prende na ponta da linha o grande peixe que acaba de ser pescado - com o qual Hemingway arma uma das mais belas obras da literatura contemporânea. Há 84 dias que Santiago, um velho pescador, não apanhava um único peixe. Por isso já diziam se tratar de um salao, ou seja, um azarento da pior espécie. Mas Santiago possui têmpera de aço, acredita em si mesmo, e parte sozinho para o mar alto, munido da certeza de que, desta vez, será bem- sucedido no seu trabalho.
                                



(Fontes das resenhas: www.skoob.com.br)

sábado, 27 de julho de 2013

A arte de possuir "bibliotecas"



        Herdar uma biblioteca, foi justamente essa ideia que me chamou a atenção quando decidi ler esse livro. Provavelmente porque eu, assim como muitos leitores, não tenho exatamente condições de comprar todos os livros que gostaria de ter, logo, "herdar" esses livros parecem uma boa saída. Enfim, essa ideia e conhecimento de que Miguel Sanches Neto é paranaense foram os motivos que me fizeram encarar esse livro (além do fato dele ter-me sido indicado por minha chefe - mas foi um pequeno detalhe esse... claaaaaaaaarooooo!...), por mais que eu não aprecie esse gênero em particular, que é a crônica (e ainda me julgo um leitor brasileiro!).
       Mas falemos de uma vez sobre a obra.
       Em primeiro lugar, é um livro rápido - afinal é um livro de crônicas - com uma linguagem que fluí e uma formatação que colabora para a rápida leitura da obra. Em duas horas é possível lê-lo por completo. Essa fluidez já seria bastante atraente para um leitor não fã de crônicas como eu, mas outro fator pesou bastante para ler rápido o livro: é impossível não se identificar com ele se você também for um leitor compulsivo!
     Sanches Neto narra - de forma ficcional ou não, não tenho ideia - a trajetória de sua formação como leitor, escritor, crítico e, logo, como dono de livros. Através das tantas crônicas que compõem o livro, às vezes até num tom de ensaio, ele vai ponderando e desdobrando os enlevos dessa arte secular de adquirir livros - afinal trata-se sim de uma arte! Indo desde suas jornadas pelos sebos da capital do estado, até, e é onde me identifico, a espera pelos livros que chegam pelo correio. Foi um alívio saber que a ansiedade por receber o livro e a excitação quando ele finalmente está em mãos são sentimentos universais. E também conta-nos do seus primeiros contatos com os livros, através da biblioteca pública, assim como muitos leitores que não têm condições de adquirir o livro, e, assim como muitos leitores, foram esses os primeiros livros que ele possuiu, em um confessado crime de amor ao roubar esses livros.
Miguel Sanches Neto
      O livro também abordar a visão de outros escritores, como Borges, Bloom e Schopenhauer sobre a leitura e sobre os livros. A mistificação do objeto livro e do objetivo da leitura é sem dúvidas a discussão mais interessante da obra: afinal, ler liberta ou aprisiona? O autor tende mais para a segunda ideia, porque uma vez que você começa a ler dificilmente você se sentirá livre para não ler novamente: do contato com o livro também nasce o amor. Mas talvez, ele propõe. esteja no fato de que o conhecimento adquirido na leitura não torna a realidade algo fácil de aceitar, ao contrário, a consciência crítica é a que mais se inquieta e mais se choca com a realidade, motivo pelo qual o livro é tudo, menos a coisinha fofa que foi idealizada e mistificada por algum positivismo livristico vigente na cultura pop. E quando a isso, o autor não discute, mas eu digo, ler está na moda! Todos leem hoje em dia. A grande questão agora é o que se lê. Sendo esse ponto também abordado por ele, todavia, acho melhor não revelar todas as minucias do livro, certo?
        Em suma é um livro divertido, o tempo passa e você não vê, e, o mais legal, não deixa de se identificar com o autor. E, acima de tudo, é um livro sobre a arte de ler e sobre livros, sobre a magia que cada página leva sim o leitor que, se souber usar o livro, terá uma experiência única na vida.
       Fora isso, preciso admitir, que ainda não consigo gostar da crônica, ou talvez seja só alguns (grande maioria) dos autores brasileiros, que usam o mesmo tom de lírica, que, para não falar nos enormes clichês e grandes cafonices, acho bobo. Mas esse sou eu, quem discordar se manifeste (com educação) por favor.


"Enquanto não passar pelos olhos do leitor, que o incorporará, na maioria das vezes inconscientemente, ao seu universo de referências, o livro não chega a ser propriamente livro. É apenas papel impresso. Um objeto que só ocupa espaço no mundo físico, uma ferramenta desprovida de sua principal função, a de interferir na constituição do humano."
(SANCHES NETO, 2004: 80)

domingo, 21 de julho de 2013

Enquanto Godot não chega

Esperando Godot. Cosac Naify, 2009.

Teatro não é minha área, mas, como todo bom curioso, sempre tento ler o máximo de coisas novas que consigo. O nome de Samuel Beckett já figurava na lista de “autores necessários conhecer” já fazia um tempo. Lendo sobre aquele que teria sido seu período mais criativo, logo após a Segunda Guerra Mundial, os anos de 1950, me deparei constantemente com o nome Esperando Godot, escrita em 1952 em um curto período de tempo – segundo o autor ele levou apenas quatro meses para compô-la – e levada aos palcos em 1953 (não sem dificuldade, porque a peça era diferente de tudo o que se via na época e ganhou a rejeição de grandes diretores do teatro francês). Finalmente sob a direção do grande diretor francês Roger Blin, a peça ganhou os palcos e se afirmou como um marco na história da arte. Um divisor de águas que mudaria e influenciaria a produção artísticas das décadas seguintes.
Minha impressão após a leitura (que é rápida, li toda a peça em poucas horas), acredito, tenha sido muito parecida com a dos primeiros espectadores. Não é sem algum estranhamento que ocorre o primeiro contato com o Teatro do Absurdo. As expressões do grotesco aliados ao cômico para expressar tragicidade, deixam no espectador (leitor) um ar surreal, de choque, que te põe imediatamente a questionar o sentido da peça. Isso e as enormes doses de nonsense embutidas nos diálogos desconexos e construções dramáticas absurdas (hello, teatro do absurdo.. dã!), fazem você pensar que está deixando algo escapar, compreendendo apenas em termos a mensagem (o que é justamente a ideia). Essa compreensão pode vir de uma interpretação tão aberta, tão subjetiva, que nas décadas que seguiram a estreia da peça – encenada em vários países e línguas – muitas “interpretações” surgiram dela. Algumas meramente niilistas, outras com verdadeiros encargos de semiótica, que atribuem à busca pela religiosidade e a figura de Deus, etc. Não é atoa que a obra impactou e mantem-se viva até hoje.
Mas a ideia do ganhador do Nobel de Literatura de 1969 é tão profunda quanto opaca, ao mesmo tempo que abrange tantos aspectos do espírito humano e da humanidade que talvez jamais se esgote.
Samuel Beckett
Tudo na peça de Samuel Beckett invoca o vazio: o vazio da vida, do espaço, do tempo, do sentido. Os dois vagabundos chaplinianos do enredo, são os heróis de uma história onde nada acontece. Vladmir e Estragon esperam, ao final da tarde, sob uma árvore, em um cenário quase desértico (ou simplesmente indefinível), de um dia inominável, a chegada de alguém que só é possível ao espectador (leitor) imaginar quem venha a ser por sua falta de informações concretas, e este é, claro, o personagem que dá titulo à obra e que, pasme!, sequer aparece em cena: Godot. Entretanto, a presença de Godot é a única coisa absoluta no palco (mesmo com sua ausência! Adoro paradoxos!), porque é ela quem ata a ação (que não existe) de todo enredo. É da espera por Godot, de sua lealdade cega, que os dois vagabundos se veem atirados num estado de incerteza e letargia que jamais termina.
Talvez suja a pergunta: “qual o sentido de ler algo assim?” (É importante dizer que Beckett, ao escrever a peça, pensou não apenas no sentido teatral da construção, mas também no literário, o próprio diretor da peça ressaltou isso em uma entrevista, ao dizer que muito que consta das marcações do autor no roteiro foram idealizados para leitores, não para atores em cena). E a resposta é simples: a obra trata de um estado incondicional e indelével a todos os homens da terra! Não é existencialista pelo absurdo, nem fatalista pelo niilismo, nem qualquer outra coisa, exceto o inevitável da condição humana: esperar por algo. Estamos todos à espera de algo que talvez venha: o futuro, o amor, a felicidade. E é incerto e solitário, pois mesmo acompanhados estamos sozinhos em nossa essência (razão pela qual tanto se questiona o sentido da vida). A obra escrita no pós-guerra, possuí um encargo de melancolia acentuado, um pessimismo que, sem o elemento cômico da peça, seria insuportável. É a história da busca, do absurdo de supor preencher esse vazio. E se é possível? Beckett não se atreve a responder essa questão. Permanecem então Gogo e Didi (como os dois vagabundos se dirigem) a esperar eternamente em suspense por Godot.

Em suma, a peça é cíclica: dois atos, dois pares de personagem, cada ato termina e começa da mesma forma. Apresentam os traços característicos que tornaram Beckett um dos escritores mais importantes do Século XX: a imobilidade, o questionamento da existência. Em suma, uma obra prima que, após muita meditação e pesquisa, quando compreendida torna-se parte do leitor, que com certeza, passará a enxergar a influência beckettiana na arte moderna e contemporânea e, mais que isso, não perderá jamais a visão de Vladimir e Estragon sob a árvore, ainda esperando Godot.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Sexo, amor e outras drogas em O complexo de Portnoy



Divertido, original, pervertido, e atual! Esses são os adjetivos que melhor descrevem a obra-prima de Philip Roth, escrita cinco décadas atrás. Com uma combinação de humor negro e erotismo, Roth cria a textura complexa da vida de um judeu de meia idade em crise existencial. É impossível não rir e se chocar, e, por mais assustador que seja, se identificar com algumas situações que apresenta ao leitor.
Considerado o maior escritor americano vivo, Philip Roth (que já se aposentou como escritor, WTF?!) trabalha com a fragmentação do conceito de ser judeu. Seus personagens enfrentam uma série de conflitos entre a ortodoxia clássica do judaísmo e o mundo em que estão inseridos. (É importante dizer que mesmo não sendo judeu, esse conflito acaba falando a quase todas as pessoas do mundo de alguma forma. E, isso é fundamental!, são escritores americanos como o próprio Roth que mais influenciaram nossos autores contemporâneos, aqui no Brasil). E é justamente por esse caminho que O complexo de Portnoy (Cia das Letras, 2012) leva o leitor.
Quase que um romance de formação, a trama narra as desventuras do pequeno Alexander Portnoy, desde sua infância, até muito próximo do tempo presente, onde ele está narrando (isso mesmo, o próprio Alex é o narrador) para seu terapeuta esses fatos. (Esse é o diferencial da trama, ela é contada como se fosse o personagem se dirigindo em uma conversa diretamente à alguém, que, uma vez que o terapeuta só manifesta sua voz na última frase do livro, é diretamente ao leitor que ele fala).
Philip Roth
Tendo crescido entre o peso da marcação de uma mãe controladora e dramática, em oposição ao vazio de um pai sem atitude e não raramente omisso, Portnoy cresceu como que em um conflito existencial, onde os papeis de formação de sua personalidade estiveram trocados entre os pais: o pai era a mãe e a mãe o pai, como ele mesmo lamenta ao seu psicanalista. Sua mãe (Sophie Portnoy) por vezes, aos olhos do narrador, é uma psicopata crônica, capaz de ameaçar o filho de cinco anos durante o jantar com uma faca, pelo simples fato dele se recusar a comer. Enquanto o pai, um homenzarrão que jamais terá uma vitória pessoal na vida, chora como uma mocinha virgem ao som da voz irritada do filho. E entre o sentimento de estar sendo sufocado pela mãe e de frustração pela impotência do pai, Portnoy encontra desde cedo no sexo (ou na masturbação) a fuga, o escape, “o meio de manter sua sanidade”.
E deste ponto começam as perversões do narrador-anti-herói-protagonista. Que nos conta desde suas experiências bizarras com masturbação (que envolve fígados crus e maçãs violentadas), até suas extravagâncias com suas namoradas (a que mais aparece no romance atende pelo apelido carinhoso de Macaca).

Entretanto, mais que um romance sobre as agruras de um judeu em crise, o romance é uma leitura (da perspectiva judia, é claro) dos traumas e anseios do homem no Século XX (e do Século XXI também!). À luz de uma paródia sarcástica e bastante ácida da psicanálise, Roth refaz o Mal-estar na civilização num tom divertido e contundente, que vai arrebatar o leitor. Escrito em plena era da liberação sexual, a atemporalidade do livro é assustadora, provando que cinco décadas depois, muitos dos “tabus” sociais continuam em pleno vigor. E é uma obra que, antes de tudo, trata da fragilidade dos laços humanos, na busca entre realização e plenitude existencial.



Outras Capas:



domingo, 14 de julho de 2013

O humor negro em Triste fim de Policarpo Quaresma

Eae, pessoal, tudo bem? O post a seguir é de um clássico da nossa literatura. Ficou um pouco grande, mas porque foi feito pensando em vestibulares, aulas de Literatura Brasileira na faculdade, etc. É uma análise, breve, não uma resenha. Então tem muuuuuuuito spoiler. Leia com cuidado se não leu, mas se vai cair em uma prova ou seminário para você, esperamos que ajude! 
    Quando Lima Barreto convida o leitor ao caminho de infortúnios do major Policarpo Quaresma, está abrindo a reticências para uma realidade de nosso país que, ainda que ambientada na ficção, de uma trama em um Brasil pós-monarquia, persiste, em uma igualdade muitas vezes revoltante, até hoje: o desleixo com os valores nacionais, o descaso com os problemas éticos e a desvalorização de nossa cultura, suplementada por uma alienação em massa. Todavia, a sátira neo-realista do autor narra o tortuoso caminho de um herói virtuoso que é, provavelmente, o único realmente engajado pelos interesses nacionais legítimos, sendo portanto, este, castigado unicamente por seus ideais nobres, pintando um cenário que, não fosse pura ironia, canta um sarcasmo corrosivo. E será, por todas as 182 páginas de seu romance mais popular, que iremos ver, indiretamente, quase que o próprio Lima Barreto sofrendo à espreita de cada página com sua personagem. Como se ao mesmo tempo em que constrói sua crítica ao Brasil, visse nas dores de Quaresma suas próprias dores e fossem suas ambições maiores para o país, as ambições do próprio autor, sendo este casamento autor-personagem, provavelmente o elemento que fomenta a química poderosa do livro. Mas, seguindo os desenlaces da trama que divide-se em três partes, cada qual composta por cinco capítulos, iremos ver o altivo major Policarpo Quaresma em sua empreitada que culminará em desilusão e sua eventual morte. Em um primeiro momento, encontramos um homem respeitável e reservado. Cujos hábitos de uma meticulosa precisão são conhecidos por todos os vizinhos. Sendo este homem, um brasileiro apaixonado e que condensa esse amor em todas as nuances de sua vida. Basta a discrição de sua biblioteca, floreada com um acervo de poetas e escritores totalmente nossos, que cantavam as glórias de nosso país, ou uma rápida olhada por seu jardim, ornamentado apenas com plantas nacionais. Mas o ato mais significativo desse brasileiro está em seu desejo de aprender a tocar viola, o que não trata-se de um mero capricho, e sim de uma exaltação à cultura, através do gênero musical que julga tipicamente nosso: a modinha. E esse louvável patriota nem mesmo preocupasse com o que dirão seus vizinhos, uma vez que são os violeiros tidos por marginais e discriminados pela sociedade.
    O autor tenta fugir dessa visão com a sua personagem Ricardo Coração dos Outros, cujo amor pela cidade e pela música é quase tão vasto quando da personagem principal. Todavia, o que estes dois românticos não percebem é que suas fantasias são meras idealizações, completamente deslocadas dentro do plano das coisas reais. Assim, como o título da obra já nos adverte, terão de aprender da forma mais dura. E se a biblioteca de Quaresma já anunciava um retorno cultural ao que é legitimamente da terra, veremos que os ideais de Quaresma estendem-se para alem das paredes de sua casa, estendendo por objeto todo o país. Escreve então uma calorosa carta ao congresso acerca de sua visão quanto ao problema da língua: “... certo de que a língua portuguesa é emprestada (...) vem pedir que o congresso decrete o Tupi-Guarani , como língua oficial e nacional do povo brasileiro.” (Pág. 52) De tão grandiosa e minuciosa era sua ideologia, acreditava que somente um idioma sem parentesco alem mar pode-se ser o idioma do Brasil. O desfecho de sua campanha, todavia, não trouxe-lhe prazer algum, ao contrário, concedeu-lhe o amargo sabor da humilhação pública em todos jornais da cidade. Fato este que explique porque razão fora parar nosso herói em um manicômio. É também essa outra peculiaridade entre autor e personagem, já que ambos foram internados em sanatórios, e o pai do próprio Lima Barreto o fora também, como uma terrível predileção do que sucederia ao filho. E sendo toda obra filha de seu autor, há de se entender o acontecido com Quaresma. A humilhação e a loucura ainda não são, todavia, castigo o bastante para esse Dom Quixote brasileiro, pois, enquanto o personagem de Cervantes buscava dragões e gigantes, Quaresma enfrentava um inimigo muito mais maligno: a módica cultura do jeitinho brasileiro de cuidar do próprio umbigo.
    Adentrando agora a segunda parte do livro, encontramos um Quaresma a caminho de seu Sossego, literalmente, pois, por sugestão da afilhada, decide mudar-se para o interior, comprando um sitio onde empregará todos os seus esforços para provar a supremacia do Brasil até no solo, mostrando que tudo o que é cultivado em nossa terra torna-se maior, mais saboroso, que em qualquer outro lugar do mundo. É também nesse sitio que ele se vê frente a outra batalha escabrosa: o combate as formigas. Mas, tanto seus sonhos de agricultor, quanto sua peripécia contra as saúvas, são interrompidos pela notícia de revoltas pelo país. Outra vez o espírito dom quixotesco da personagem leva-o de encontro ao mundo lúdico que habita, uma vez que acredita, Quaresma, que uma nação ideal deva ser fomentada na submissão ao líder, tal qual ordena a honra de um cavaleiro, e assim une-se ao exército, para combater, em nome do presidente Floriano Peixoto, os revoltos. Controlada a insurreição, muitos conseguem tirar proveito de cargos elevados no ministério, tal qual era a real intenção destes ao unirem-se ao exército. Quaresma, todavia, é mandado para uma prisão, onde trabalha como carcereiro, por mais que houvesse sido ele o único com intenções legítimas a lutar. Desempenha seu cargo de maneira exemplar, como era de se esperar. E como também se havia de esperar, não fora sua consciência desligada de seus ideias – infelizmente para ele. Assim, ao deparar-se certo dia com um juiz que distribuía as sentenças aos prisioneiros aleatoriamente, sem um julgamento adequado e com punições por vezes exageradas e injustas, escreve uma carta ao presidente, explanando toda sua indignação frente ao fato e pedindo medidas. Seu pedido é aceito e uma medida é tomada: é considerado Quaresma um traidor, atirado à cadeia e sentenciado à morte. Nesse ponto, o triste fim da personagem se dá em dois momentos: no primeiro, o herói patriota, o homem motivado pelas mais elevadas intenções e guiado por um apurado senso ético, é considerado pelo país que tanto amava e defendia um traidor, sendo punido da forma mais severa cabível por seu amor. Não trata-se apenas de uma ingratidão, mas uma cusparada na cara de Quaresma por parte de seu Brasil. 
    O homem que tanto defendera-o, é considerado inconveniente por este, ao mesmo tempo em que personagens nem um pouco preocupados com a mortal conseguiam alcançar seus objetivos egoístas. Em segundo momento, encontramos o verdadeiro sadismo do autor, ao reservar a personagem um destino quiçá pior do que a morte: a realidade. Não basta matar o sonhador, é preciso fazer com que este acorde. E é então, quando Quaresma se vê preso, sozinho e traído, que o véu onírico que redigia os valores frente seus olhos se rasga, e antes de ser morto ele percebe que durante todo este tempo esteve perseguindo coisas impossíveis, sendo acometido de maquinações amargas que ruminam a desilusão. Talvez, nem se possa mais considerar a morte do herói uma sina triste, pois ao descobrir que o Brasil que tanto amava não existe, e que seus ideais não cabiam no mundo que lhe cercava, encontramos um personagem sem sua raison d'être, como se sua própria essência houvesse se extinguindo, o que da à morte não um aspecto trágico, mas de alívio. Não que nos seja surpresa esse desfecho, pois enquanto a personagem despedaçada do herói aguarda em sua cela pela execução, o autor já havia nos advertido desde o titulo sobre o Triste fim de Policarpo Quaresma. O próprio nome do protagonista fora escolhido sobre medida para seu destino, pois o nome Policarpo vem da junção de duas palavras gregas (poli e carpo) que significam literalmente: Muito Sofrimento. E o próprio sobrenome da personagem é uma alusão aos quarentas dias de penitencia católicos após o carnaval. 
    Lima Barreto não usou de ilusões para compor um Brasil do final do século XIX, período em que se passa a história. Ao contrário, captou e retratou nas desventuras de sua personagem uma falência do senso crítico nacional por parte de uma população alienada, de uma massa de políticos oportunistas e de modistas acoturizados que viam na cultura estrangeira mais valor que na cultura nacional. É com um homem diabólico que ele conduz a caricata personagem, em toda sua extravagância e exagero, denunciando pelo excesso um problema medido em todos os estrados sociais. Entretanto, ao mesmo tempo que faz a piada, não podemos deixar de sentir por parte de Lima Barreto uma intenção de denunciar com a caricatura o estado de letargia social que vivia (ou talvez ainda viva) a sociedade brasileira, chamando-os para a mudança. Dessa forma, a visão sonhadora e ingênua de Policarpo, tão em desacordo com o mundo real, talvez não deixe de ser o elemento que falta para se concretizar o sonho de um Brasil nobre. Pois talvez a maior piada feita pelo autor não esteja no escabroso final de Policarpo, mas na indiferença com que tratamos a realidade que ele denúncia, o que nos trás à um Triste Fim não de uma personagem tipo, mas de um país inteiro.