Uma das principais obras curtas de Henry
James, a obra A fera na selva, de
1903, também é uma das mais belas obras do começo do século XX. Modesto Carone, em seu posfácio à edição
brasileira de 2007, refere-se à novela jamesiana como uma “renovação inesperada
da história de amor” (pág. 83), pois James trata a trama de uma ótica
totalmente incomum para as histórias românticas.
Pertencente à terceira fase do escritor,
a última e mais complexa, o livro segue toda estrutura que marca essa fase,
onde o autor abandona a preocupação com a trama para se focar na psicologia das
personagens, criando uma narração que se calca mais na ausência que na ação, o
que dá aos seus escritos um tom mais monótono. Ainda assim, se falta ação,
James não deixa nem por um segundo de envolver seus leitores com um suspense
sutil.
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| Caricatura Henry James |
A história narra o reencontro de John
Marcher e May Bartram após muitos anos. Desse encontro, o leitor descobre que
no passado, John fizera a moça uma confidência inusitada, revelando a ela a
terrível maldição que rondava sua família: “um mal que espreita para dar-lhe o
bote como um fera na selva.” Ninguém sabe quando ocorrerá, mas John sabe que ao
acontecer será trágico, assim como o foi com seu tio. A moça, única pessoa para
quem ele contou esse segredo, o guardou até o presente, e disso nasce uma
amizade longa que duraria até o fim de suas vidas, e que aos poucos se
converteria, sem que John o notasse, em algo mais.
Conforme os anos passam, sua relação se
torna mais próxima, entretanto, John está cada vez mais temeroso de sua
maldição. Os dois estão mais próximos, e ele percebe que May é a melhor coisa
em sua vida. Mas não deixa-se, por medo, levar pelo amor. Até que esta fica
doente, e morre.
Somente
então a terrível maldição é revelada, e ele descobre que poderia sido evitada:
deixar a vida passar ao léu, e não viver por medo. Diante desse consciência
John brada em desespero sob o tumulo da ama, ao que o narrador, que se confunde
com o fluxo de pensamento da personagem sentencia: “Quando as próprias
possibilidades, consequentemente, mostravam-se exauridas, quando o segredo dos
deuses se esvaia, ou mesmo evaporava, isso sim, e apenas isso, era o fracasso”
(JAMES, 2007; p. 44).
Todorov (2003), define as novelas
jamesianas como uma busca por uma carência ou uma ausência. Segundo o teórico,
quando essa carência ou ausência é suprida a história acaba. Nesse sentido, A fera na selva narra a triste história
de amor partindo do medo de John, que faz com que negue e fuja do amor devido a
expectativa do que possivelmente irá ocorrer (o desconhecido, a ausência de um
mal que surgirá a qualquer momento), e no momento em que ele toma consciência
do que é esse mal, a trama acaba.
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| Imagem interior do livro, edição Cosac Naify, toda estilizada. |



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