sábado, 19 de abril de 2014

Uma odisseia para o Século XXI – resenha de 2001 – Uma odisseia no espaço



Tudo bem que existe um consenso hipócrita quase universal de que não se deve julgar um livro pela capa, mas como diria Oscar Wilde “apenas os tolos não julgam pela aparência”, e não tenho vergonha alguma em dizer que o que me levou a ler o clássico de ficção cientifica do britânico Arthur C. Clarke foi o incrível projeto gráfico da edição de 2013 da editora Aleph. Muito original e chamativa, o livro vem em uma caixinha que seria a capa original, mas o livro em si tem um detalhe fantástico: é todo preto (inclusive o corte das páginas). O preto já é minha cor favorita (resquícios de uma adolescência com forte inclinação para o gótico e para o heavy metal), e quando eu vi essa edição inteligentíssima copiando um monólito não consegui resistir, fui literalmente seduzido pelos olhos antes de pelo conteúdo. E apesar de toda carga de culpa que emana de uma decisão tão fútil como a minha, preciso dizer em minha defesa que de outra forma provavelmente nunca o teria lido, porque eu literalmente dormi quando assisti ao filme 2001: Uma odisseia espacial (fãs de Kubrick ficando indignados em três, dois, um...). Em todo caso o livro não só me reanimou para reassistir o filme, como também para ler mais ficção cientifica.
Arthur C. Clarke
E caso ainda exista um ser na terra (não vamos arriscar no universo, afinal, podemos não estar tão sozinhos assim e ETs devem ter mais o que fazer do que ficar acompanhando nossa cultura pop) que não conheça a história, 2001 – Uma odisseia espacial, é uma viagem por mais de três milhões de anos na história da humanidade (e do universo também). O livro começa junto dos primórdios da humanidade, lá na África do tempo dos homens macacos (antes dos homens da caverna propriamente dito). Esse ponto da narrativa é curioso, porque faz profundas reflexões, como, por exemplo, como funcionava a linguagem antes do invento da própria linguagem. Em todo caso, numa bela manhã, surge no meio de uma tribo homens macacos um estranho monólito todo negro que começa a executar estranhas experiências com esses homens macacos. O que os homens macacos não tinham como saber (nem qualquer pessoa que não tenha lido o livro ou visto o filme), é que foi exatamente esse monólito quem despertou as primeiras ondas cerebrais responsáveis por fazer evoluir o homem macaco, e com isso, começou a humanidade.
Milhões de anos depois, com a humanidade já estabelecida e desenvolvida, as viagens espaciais são coisas comuns, e um importante cientista americano, o Dr. Floyd, é designado para investigar um estranho acontecimento na lua (é curioso dizer que o livro foi escrito alguns anos antes da primeira viagem para a lua). Muito mistério está envolvo do que se passa na lua, mistério criado para impedir que os outros países que não o EUA (obviamente) descubram que finalmente foi descoberto a primeira prova de que existe vida inteligente fora da terra e, pasme!, trata-se de um monólito negro enterrado em uma cratera na lua!
Hall 9000
Depois a história salta para o terceiro e último foco narrativo, dois anos após os acontecimentos da lua, com uma expedição para Saturno, com o suposto objetivo de fazer as primeiras pesquisas tripuladas no planeta. Mas a verdade é que essa viagem possuí uma missão muito mais importante para humanidade. Qual? Se você não consegue adivinhar leia o livro. E é também nesse ponto que entram um dos personagens mais marcantes do filme (e do livro) e Kubrick, o super computador Hal 9000. Um tipo de inteligência artificial com alguma propensão para a psicopatia e que carrega as respostas por trás da missão, e com uma das falas mais emblemáticas do cinema, que até hoje faz fãs de ficção cientifica se arrepiarem: "Hello, Dave".
Desse ponto em diante a história deslancha, e o que temos é o máximo da capacidade criativa e cientifica humana (ao menos na época), com algumas teorias incríveis, outras absurdas e uma ridícula. Em todo caso, o livro de Clarke tem outro curioso detalhe: ele foi escrito a partir de um roteiro, ou, mais precisamente, ao mesmo tempo que um roteiro (o do filme homônimo dirigido por Kubrick), contrariando o processo onde livros são adaptados para roteiros. Em todo caso, fãs do filme fazem críticas ao livro por dar “detalhes demais” e “muitas explicações” sobre as coisas fantásticas e quase psicodélicas que o filme mostra sem respostas. Em todo caso, levando em consideração as limitações do filme na época de sua produção, ler o livro é como ter acesso ao único remake possível onde a história pode ser melhor que a original, afinal, uma nova versão do filme com certeza seria um fracasso. Assim, se você procura novas experiências com a leitura não perca tempo, e leia esse livro, principalmente pela correspondência que ela faz com outro clássico, a Odisseia de Homero, no sentido em que ela propõe uma viagem ao desconhecido, frente às coisas grandiosas do universo e aos segredos dos possíveis deuses que habitam o universo. Mais do que isso, 2001 é uma leitura para a nossa época, pois somente em pleno século XXI, com o atual conhecimento cientifico da humanidade, podemos ter uma dimensão exata do que foi preciso ou absurdo, perfeito ou desnecessário, na obra clássica de Clarke.




PS: Um último comentário: esse livro me fez sofrer muito ao me fazer perceber que eu nunca irei pisar “de verdade” em outro planeta. T.T

Edições antigas: (o primeiro livro 2001 fez tanto sucesso e o autor, Arthur C. Clarke ficou tão impressionado com os avanços científicos dos anos pós filme\livro, que ele decidiu começar uma série, da qual resultou mais quatro livros).



Cena do filme:


sexta-feira, 11 de abril de 2014

O tempo no paraíso – Resenha de Em Algum Lugar do Paraíso



Eu não sou fã de crônicas, quem me conhece sabe bem disso, mas, algumas vezes, consigo achar um ou outro livro que realmente me cativa. Nesse caso, nem deveria ser novidade, afinal em termos de crônicas Luis Fernando Verissimo é talvez o nome maior no cenário literário nacional, e ele está fazendo muito jus ao título na obra Em algum lugar do paraíso (Objetiva, 2011). Acho que nunca ri tanto em um livro como nesse, embora isso outra pessoa que leu não pareceu achar tanta graça como eu (o que me faz pensar no quanto é fantástica a subjetividade da literatura). O livro reúne 41 crônicas, sobre os mais diversos temas, indo desde reflexões sobre o tempo com adornos religiosos, até um desfecho inusitado para a peça absoluta de Beckett.
Em suma essas crônicas reúnem todo humor que marca propriamente o gênero crônica, e traz consigo toda crítica implícita do autor sobre a sociedade brasileira. Na maior parte das vezes, essa crítica é voltada para a classe média e classe média alta, naquilo que podemos chamar de “comédia de costumes”. É o caso da crônica onde um ex-rico preciso se controlar no mercado, apesar do desejo desesperado de comprar produtos importados. Mas, por outro lado, algumas crônicas são apenas humorísticas, e particularmente eu achei que são as melhores. É o caso da crônica do astronauta que é confinado sozinho pela NASA, e que com o passar do tempo começa a enlouquecer. É de morrer de rir. Na verdade, não lembro de ter gargalhado tanto em um livro antes.
Luis Fernando Veríssimo
Mas o ponto alto do livro é de longe a primeira crônica, que também é a crônica que dá nome à obra. Veríssimo faz uma divertida e profunda análise das dimensões do tempo, de como ele se configura para nós de modo que podemos reconhecer em um domingo algo que nos faz pensar em domingo, ou na segunda, etc. Ao mesmo tempo, ele propõe que as datas são inúteis, porque não servem verdadeiramente para marcar como as coordenadas, e em algum momento de nossas vidas estamos todos a orbitar na existência. Profundo não? Então, livro super recomendado!

Eu sou fã do escritor gaúcho mais pelos romances que pelas crônicas (por alguma razão, sempre achei a dita comédia de costumes algo fraco, que remete a um tipo de literatura superficial), mas, deixando de lado minhas opiniões sobre os rumos da literatura brasileira, eu nunca fiquei tão surpreso com um livro de crônicas e posso dizer que além de ler os romances e contos, com certeza lerei mais crônicas do Veríssimo. 

"As datas deveriam nos  fixar no tempo como as coor denadas geográficas nos fixam no espaço, mas a analogia não funciona. O tempo não tem pontos fixos, o tempo é uma sombra que dá a volta na Terra. Ou a Terra é que dá voltas na sombra. Nossa única certeza é que será sempre a mesma sombra — o que não é uma certeza, é um terror."

sexta-feira, 4 de abril de 2014

O campo de centeio – Resenha de O Apanhador no Campo de Centeio



E para terminar nosso mês mais que especial de clássicos, escolhi um dos cem livros mais importantes do século XX, e que marcou gerações e gerações de leitores no mundo, com mais de 250 mil exemplares ainda vendidos todos os anos, mais de cinquenta anos após seu lançamento! Confira:
Existem livros que quando você decide se aventurar por suas páginas te causam aquela sensação de estar pisando em território sagrado, e a despeito da ausência de arvores que queimam sem jamais se consumir, trovões, vozes sinistras vinda do além e luzes mágicas, essa sensação de sagrado é ressaltada por todo mito que reveste a obra. E nem é preciso ler um capítulo inteiro, já basta o título para desencadear um palpitar diferente no seu coração, só para você sentir que está diante de uma lenda da literatura. E embora os Harolds Blooms da vida tenham uma ou outra palavrinha para dizer sobre esse fenômeno de canonização literária, o que te importa é que algum deus das palavras decidiu dividir com você um pouquinho de sua grandiosidade atemporal. E foi mais ou menos isso que ler O apanhador no campo de centeio (Do Autor, 2012) significou para mim.
J. D. Salinger, enquanto agride o fotografo
E eu sei que se você está lendo isso é porque está esperando aquele momento do “e o livro fala sobre...” e “o que eu achei do livro...” mas, antes do praxe, preciso dizer que toda essa aura de mito me fez, quando comecei a ler, ter aquela sensação de estar realizando algo, e quando terminei fui mais uma vítima da idealização vs. realidade, sem que isso signifique que eu não tenha gostado, só que toda expectativa criou um quadro irrealizável na prática, o que não me tornou o mais ideal dos leitores (você também já deve ter passado por isso).
Agora, enfim, vamos falar do livro! O livro polêmico, que colocou J. D. Salinger ao mesmo tempo no limbo dos autores “proibidos” em várias partes do mundo (e do próprio EUA), e nos pedestais dos maiores escritores do século XX (dá para entender porque o cara decidiu se isolar boa parte de sua vida). Em todo caso, o livro que também é envolto por polêmicas, censuras e proibições, além de ser associado com vários assassinatos famosos (os Beatles que o digam), também é responsável por uma das maiores revoluções literárias já registradas. E não apenas para a literatura americana, para a literatura mundial como um todo. Há até críticos que dividem a literatura do século XX com um antes e depois do O apanhador no campo de centeio.
E isso porque Salinger promoveu uma revolução no campo das palavras, tanto pelo vocabulário que adotou, como pela escolha de seu personagem. Holden, o anti-herói adolescente mais cultuado do mundo, é uma versão dostoievskiana de herói mirim. Perturbado, ambíguo, o personagem se tornou um símbolo da rebeldia juvenil. E embora o personagem tenha uma grande quantidade de dor e ódio voltado para a sociedade como um todo, boa parte desse ódio o próprio protagonista não consegue explicar, e não chega direto a nós os leitores, se não por meio de sutilidades e subtendidos propositais deixados como pista pelo autor. Mas falaremos já já disso. Por outra, o outro ponto que é fundamental na obra ser citado é a revolução da linguagem. Embora gírias e dialetos do submundo já houvessem sido empregados antes (como por Victor Hugo), Salinger criou uma revolução ao trazer primeiramente isso ao primeiro plano, dando nas mãos de alguém desse meio a narrativa, alguém que além de utilizar essa linguagem ainda se expressa tão inconstantemente e algumas vezes vago quanto um adolescente problemático. Assim a narração acontece com palavras fortes, marcadas por gírias, e que transmitem toda ira juvenil de seu narrador, que foi o que chocou inicialmente o público. Aliado a isso, a oralidade expressiva e volúvel de alguém que não consegue se definir, e está indo em uma direção, com rodeios, confusões e mudanças súbitas de humor, provavelmente caracterizam o que existe de mais complexo na composição do livro. (E infelizmente preciso fazer um parêntese para ressaltar que no campo da linguagem a tradução brasileira é uma droga! Com uso de expressões “abrasileiradas” e outras afrontas ao texto original). 
Holden Caulfield
E se você estava pensando que eu não iria contar o enredo, pode respirar aliviado. A história conta as desventuras de Holden Caulfield, um jovem nos últimos anos do ensino médio (equivalente no Brasil) e que acaba de ser expulso de sua escola. Ele precisa voltar para casa, mas antes disso ele prefere se esconder de todos que conhece, e tentar, ao seu modo, fugir das consequências. Mas durante a narração percebemos que ser expulso é apenas a ponta do iceberg. Holden é marcado pela perda de um irmão, somado com outros problemas implícitos na obra, que provavelmente são o motivo para o autor escolher o misterioso título O apanhador no campo de centeio. Em algum momento da obra, Holden e sua irmão (que é uma importante personagem embora apareça pouco, e que ele descreve com uma idade, mas provavelmente é um pouco mais velha) conversam sobre o porquê dele estar “tão perdido” e ele cita um poema que poderia explicar o título. Mas a verdade é mais profunda do que um simples complexo de Peter Pan, e trata-se, na minha opinião, de um sentimento de culpa, que o faz querer voltar eternamente no tempo em que ele poderia salvar alguém. Mas esse sou eu, claro. Além da irmã, um irmão mais novo é citado sempre na obra, como uma lembrança especial.
E embora eu tenha me tocado que essa resenha já ficou enorme, e que eu não disse dez por cento do que gostaria, terminarei dizendo: leia esse livro. É uma história densa e profunda, muito diferente da maioria dos chamados “livros para adolescentes”. É preciso ler com calma e se possível reler, para compreender toda dimensão do personagem. E caso você decida ler esse livro para tentar entender porque tantos assassinos famosos o citam como espiração, desista, o motivo não está claro (esse é um trabalho para os caçadores “babacas” de mensagens subliminares), e provavelmente é fruto só da cabeça deturpada dos assassinos.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Os ratos sublimes – resenha de Ratos e Homens, de Steinbeck




Para abrir as minhas resenhas sobre clássicos, escolhi uma das histórias mais tocantes que já li, e talvez uma das mais belas. É verdade que quando falamos em clássicos imaginamos obras que estão separadas de nós por pelo menos um século de distância, mas não é preciso recuar aos tempos do “vossemecê” para se encontrar um desses grandes livros. E nem precisa o livro ser “grande” no sentido mais literal da palavra. Existem clássicos que são “pequenos”, do tamanho que se pode ler em uma sentada, sendo que alguns deles foram escritos ainda ali, no século XX. É o caso da obra Ratos e homens (L&PM, 2011), do ganhador do Prêmio Nobel de 1962, o americano John Steinbeck.
Com uma variação de páginas que pode ir de 90 até 140 páginas dependendo da diagramação e do tipo de edição, Ratos e homens se tornou desde sua primeira publicação uma obra célebre. Além de tornar seu autor mais conhecido no cenário literário, arrebanhando mais leitores, a obra conseguiu combinar com maestria o estilo e a técnica de um escritor maduro, visível no narrador, com a forma coloquial da fala, mais precisamente o estilo caipira, presente em cada dialogo do romance, o que por si só foi uma grande prova de domínio estilístico. Mas vamos parar de palavrório, e ir ao ponto:
O romance se passa durante a depressão econômica dos anos 1920 nos EUA, e contam a história de dois amigos que, no mínimo, são bastante incomuns. Trata-se pois de um homem baixo, com uma ligeira familiaridade com os roedores que batizam o título, mas que é dotado de um cérebro incomum para homens com seu nível de instrução, e seu companheiro, um gigante assustador, mas que tem um coração e uma mente infantis. Juntos, esse exemplo de contraste, formam uma amizade de toda incomum, enquanto viajam pelo país em procura de emprego nas grandes fazendas do interior americano. 
John Steinbeck 
George – o cara de rato – até levaria uma vida mais fácil devido a sua astucia, se não fosse seu enorme amigo, Lennie, que por ter uma cérebro de criança e uma força de Golias, está sempre causando confusão e metendo os dois em sérios problemas. Mas, entre um tragicomédia e outra, eles conseguem juntar algum dinheiro, e vão sonhando em realizar um sonho: serem donos de uma pequena propriedade rural, uma terrinha simples, mas que seja deles. E no caminho desse sonhos, eles são levados até uma fazenda da Califórnia, onde suas vidas e a vida de outros peões dão início ao conflito do romance, pois muita dor separa os dois amigos de seu sonho.
Para começar, o filho do dono da fazenda gosta de desafiar os grandões, enquanto sua jovem esposa adora cair nas graças dos peões da fazenda, e logo Lennie se vê alvo de uma dupla bastante malévola. Mas nesse meio tempo, os dois amigos conheceram outros homens como eles, como o velho capaz, que já raquítico e fraco, está disposto a colocar todas as suas economias no sonho dos amigos. E o cavalariço negro, que em plena era da segregação racial americana encontra nos estranhos amigos um vislumbre para sua felicidade.
Assim, essa história se torna, antes de tudo, uma história sobre os sonhos humanos, e a brutalidade do mundo em que vivemos, Uma história sobre como coisas frágeis e belas tendem a ser despedaçadas por uma realidade apática e materialista, que reduz homens, como insinua o título, à ratos. Mas é também uma história sobre a solidão humana. Sobre como homens sem nenhuma esperança se encontram, e como buscamos, em iguais, e em cada réstia longínqua de sonhos, nos tornar completos. E nesse sentido, o livro é atemporal.

É uma das histórias mais tocantes que já li, e embora não tenha me levado às lágrimas, não me manteve apático, longe disso! Steinbeck é um ótimo criador de tipos, e em seus personagens encontramos vida e vigor, sendo impossível não se apaixonar. E embora o destino não vá ser clemente com a dupla de amigos, em sua tragédia nós, os leitores, encontramos aquela que talvez seja a mais sublime catarse de todas: a lembrança de que não é o mundo, mas os sonhos que fazem os homens. 

domingo, 9 de março de 2014

Anatomia dos clássicos



Somente depois de escrever esse título eu me dei conta do quando ele é pretensioso. Mas, em minha defesa, digo que a tarefa que me coube é igualmente pretenciosa: escrever uma introdução para um especial de clássicos no blog. Me deu até um friozinho na espinha, para falar a verdade, e enquanto eu vou enchendo linhas para ganhar tempo, me ocorre que críticos e teóricos literários do mundo inteiro se debatem sobre essa questão há muito tempo, sem terem chegado em um consenso em absoluto. Logo, não tenho certeza que posso contribuir muito para esse campo, principalmente porque com pouco mais de duzentos livros lidos na vida ainda sou um leitor amador. Em todo caso, tarefa dada é tarefa cumprida, então seja o que Deus quiser...
A primeira coisa que me ocorre quando falo em clássicos é a divisão que isso provoca nos leitores. Enquanto alguns julgam os clássicos os livros mais sérios e criteriosos que existem, outros o consideram sumamente difícil e de acesso complexo – para alguns até algo obsoleto. Assim existe uma divisão entre leitura chamada “best-seller” e leitura de clássicos.
Mas eu não enxergo tão preto no branco essa divisão. Em primeiro lugar porque o termo “best-seller” é empregado por muitos leitores como algo pejorativo, tido como literatura de segunda categoria. Mas, esses intransigentes não levam em conta que muitos clássicos foram em seu tempo verdadeiros best-sellers: Os miseráveis, de Victor Hugo, por exemplo, venderam milhares de cópias só nos seus primeiros meses de publicação, tendo sido um fenômeno literário digno de Harry Potter ou Crepúsculo. E se não for o bastante, foi um livro que muitos críticos chamaram de subliteratura (Dostoievski, por exemplo – apesar de Tolstói ter amado o livro).
Em contrapartida, atualmente muitos livros e autores bons se tornam best-sellers, e podemos atribuir isso ao seu talento, não as leis de mercado. É o caso do Saramago, ou do Rubem Fonseca aqui no Brasil. E quanto a linguagem difícil, e tal, é importante lembrar que as obras clássicas foram escritas em um tempo diferente do nosso, onde a linguagem não era difícil. E, pesando tudo isso, eu realmente creio que não existam livros difíceis, mas leitores despreparados (tirando os livros de James Joyce, Marcel Proust, Guimarães Rosam William Faulkner e Thomas Mann, claro), enquanto outros autores clássicos possuem uma linguagem extremamente acessível sim, como Kafka, Hemingway e F. Scott Fitzgerald por exemplo.
Ítalo Calvino 
Mas o que determina que os livros desses autores venham a receber o tão celebrado peso de um clássico? Ítalo Calvino (e tenho certeza que muitos pensaram que eu usaria esse livro como base, afinal, ele é um clássico da teoria literária) em sua obra Por que ler os clássicos (Cia. das Letras, 2007), defende que um clássico pode ser lido por leitores de todos os tempos, e por mais que as condições sociais, religiosas, costumes e afins mudem, o leitor de todos os tempos sempre irá encontrar no clássico algo que lhe fale diretamente em sua vida. Isso quer dizer que um clássico é um livro que, acima de tudo, é atemporal, e pode ser lido em qualquer tempo com algo de imediato ao leitor. Ao mesmo tempo, para continuar sendo lido (e relido!) é importante que ele tenha sempre algo novo para dizer, por mais conhecida que seja a história, mesmo para alguém que já o leu. Assim, Calvino defende um clássico como um livro que jamais termina de dizer o que tem para dizer. É algo que sempre se renova. Outro ponto importante, é que o clássico é universal, ou seja, todos conhecem, e ainda assim extremamente pessoal, porque cada leitor tira de um clássico uma medida diferente. Assim, existe um livro que pode sim ser um clássico apenas para mim, enquanto pode haver outro clássico que eu odeio (particularmente eu e os clássicos brasileiros não nos damos bem, mas isso é uma herança dos meus tempos de escola).
C. S. Lewis
C. S. Lewis, em outro livro fantástico chamado Uma experiência na crítica literária (Unesp, 2009), defende que o que determina o valor de um livro é primeiro o modelo de leitor. Assim, um livro que nós não gostamos ou achamos difícil, provavelmente é resultado de nossas expectativas e gostos sobre o livro, sendo que o ideal para se ler um livro de verdade é lê-lo sem preconceito e sem desejos, é deixar que o livro conduza o leitor, que o livro exija o que pretende do leitor, e que o leitor cobre apenas isso do livro. Assim, o problema da dificuldade nos clássicos pode residir em nossa forma de ler. Mas o nessa mesma obra, Lewis defende que um valor de um livro é determinado pela capacidade que um livro tem de tocar seus leitores, e por isso um best-seller do pior tipo pode vir a se tornar um clássico pessoal para mim.
Mas para fechar o assunto, pensemos em quantos livros foram publicados nos tempos de Machado de Assis, Victor Hugo, Tolstói, Hemingway, e quantos dos autores contemporâneos desses grandes nomes nós conhecemos hoje. Muitos poucos. E mesmo de alguns nomes cujos livros sobreviveram, apenas uma parcela de suas obras ainda é lida. Isso porque o tempo é sim o maior dos juízes, e por isso um clássico é uma obra cujo conteúdo humano, cuja verdade, cuja beleza, cujos traços são tão fortes, que irão sobreviver ao tempo e habitar seus leitores em todas as épocas, como parte do imaginário e do conhecimento humano. Assim, o verdadeiro clássico é aquele que é, antes de tudo, humano, e partilha dos sentimentos, sonhos, medos, carências, e problemas do homem enquanto houver humanidade.



Está feito! Não foi tão difícil, mas também não foi um passeio no parque. E se você é do tipo de leitor que só encara clássicos, ou que quer começar a caminhar por essas veredas, confira ao longo dessas três semanas que restam de Março nossos posts especiais, com resenhas, críticas, e curiosidades.

Até.

sexta-feira, 7 de março de 2014

No corredor da morte – resenha de À espera de um milagre

Capa da edição anterior, com poster do filme


Em primeiro lugar, gostaria de agradecer ao senhor Stephen King por me fazer chorar litros de lágrimas como uma criança cujo doce foi roubado. E não estou falando de lágrimas ocasionais, silenciosas, escorrendo numa boa, mas sim em uma torrente, com direito a soluços e tudo. Na verdade a coisa foi tão violenta que eu tive que, faltando dez páginas para acabar o livro, parar a leitura e chorar tudo de uma vez, para conseguir lavar o rosto e voltar a ler. É meus amigos, esse é o efeito de À espera de um milagre (Objetiva, 2005), do mestre do terror, que nesse livro quis provar que é antes um mestre do fantástico do que do terror.
Em segundo lugar, preciso perguntar: mas de onde desencavaram esse título em português? O original The green mille nunca nem foi cogitado como título no Brasil, e olha que antes o livro foi publicado por aqui com o nome de O corredor da morte. Se bem que, convenhamos, o título definitivo ficou bem legal, talvez até mais que do original, que só faz sentido para quem lê o livro, e com atenção.

Mestre Stephen King
 E digo ainda: esse é de longe o melhor livro escrito pelo King, e não digo isso só pela história, afinal, apesar de o titio Stephen não ser considerado um “escritor sério”, mas sim um “autor de massa e de histórias de subliteratura”, a verdade é que quando se trata de criar enredo, personagens e tramas ele faz isso magistralmente sim. Com personagens que irão se tornar ícones e sobreviver por décadas, quiçá séculos, no coração e nas mentes dos leitores (ó! Nada como uma declaração clichê para embelezar a defesa de um escritor popular). Enfim, o fato é que ele sabe sim criar enredos muito bem amarrados, que prendem o leitor, são diferentes, e originais. E apesar disso, não é por essa razão que esse é o melhor livro dele para mim.
O fato é que ele escreveu com muito mais cuidado, e a linguagem e a estética ficou muito mais acabada que nos outros livros. O personagem narrador é marcante, ele fala com muita propriedades, trejeitos, e opiniões que fazem dele quase alguém real. Existe uma poética que normalmente falta na prosa de autores de fantasia, e a história segue caminhos complexos da narrativa, como a não linearidade, onde o autor vai contando por reminiscências o ocorrido. Nota dez para o titio Stephen aqui.
Quanto a história, acho que não preciso falar muito, pois todos, mesmo quem não assistiu o filme nem leu o livro a conhecem. O livro conta sobre um personagem enigmático chamado John Coffey (nome muito parecido com João Café em português), um negro absurdamente alto, com músculos ridiculamente bombados, e com uma personalidade, no mínimo, exótica. Em miúdos: o cara grandão chora o tempo todo e tem medo de escuro. Seria cômico, não? Mas nem de longe nosso personagem é alguém fofo, na verdade ele está no corredor da morte por ter estuprado e assassinado duas menininhas indefesas. Isso ao menos supostamente. E se tudo isso já não fosse bem peculiar, John Coffey ainda tem mãos mágicas (sem trocadilhos). Com um toque ele é capaz de competir com muitos pastores pentecostais e curar qualquer doença, mas com muito mais charme.

Michael Clarke Duncan interpretando John Coffey 

A história é contada por Paul Edgecomb, que por muitos anos foi o chefe dos guardas no corredor da morte. E além dele, outros personagens passam pelo livro, como o fabulo (e responsável por metade de minhas lágrimas) Sr. Guizos (ou Mr. Jingles para quem só assistiu o filme), que é talvez o ratinho mais esperto de toda ficção universal. Ao longo da trama, vamos descobrindo mais sobre Coffey, e os difíceis dias antes de sua execução, onde os guardas precisam lidar com aquele que talvez seja o maior enigma de suas vidas.

Agora, para falar do filme, acho que sua melhor qualidade é ser bem fiel ao livro, com algumas mudanças, o que é natural, mas que segue bem próximo a linha do livro. (Ainda assim, o filme é bom, enquanto o livro é perfeito). O diretor já trabalhou com várias adaptações da obra de King, incluindo Um sonho de liberdade, que é um de meus filmes favoritos. Recebeu várias indicações ao Oscar, embora não tenha recebido nenhuma. Mas, se você tem três horas disponíveis, e quer gastar com um bom filme, assista. Vale a pena, afinal é sempre mágico ver seus personagens ganharem vida (principalmente o Sr. Guizos), sem falar que Tom Hanks está em uma de suas melhores interpretações. 

A nova capa do livro:


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

A fórmula Zafón – resenha de O príncipe da névoa




Ano feliz é um ano com lançamento de um livro novo de Carlos Ruiz Zafón. O cara é tão bom, que eu particularmente acendo uma vela para qualquer santo que faça campanha de ajudar escritores a escreverem (e ele está demorando tato para acabar a saga do Cemitério dos Livros Esquecidos, que logo logo vai precisar de muitas velas). Após se tornar mundialmente conhecido e um dos escritores mais vendidos da história editorial recente do planeta, com A sombra do vento, as editoras encarregadas de publicar sua obra pelo mundo se apressaram em correr atrás de outros títulos do cara para preencher sua fatia no mercado – o que é bem necessário, já que ele entra para a categoria R. R. Martin de escritores lentos para escrever. E seguindo essa vibe, a Suma de Letras trouxe os primeiros livros de Zafón, ou seja, aqueles que ele escreveu antes do famigerado Sombra do vento, que fizeram algum sucesso na Espanha, mas nada digno de ser traduzido antes (apesar que Marina foi um livro e tanto!), e entre esses livros está o primeiríssimo trabalho dele, O príncipe da névoa.
Antes de entrar no campo do “o livro fala sobre...”, preciso dizer: sou culpado por antecipação para falar do Zafón, porque sou verdadeiramente fã do cara (ok, não li a biografia detalhada, nem pagaria para ver em um museu a coleção de cuecas do cara, mas acho que vocês entenderam). Foi com A sombra do vento que posso dizer que fiquei viciado em livros. O acho extremamente poético, e absurdamente criativo. As notas de suas histórias, que são sempre sombrias e melancólicas, caem como música aos meus olhos, sem falar que essa onde de modern gothic que ele usa é algo que eu acho incrível. Logo, se me pedirem para recomendar um escritor do coração, o tio Zafón seria talvez a primeira opção.
Carlos Ruiz Zafón
Muito bem, adendos feitos, vamos ao livro. “O livro fala” sobre uma família barcelonesa, que para fugir da guerra se mudam para uma cidade costeira pequena no interior. Eles mudam para uma casa onde outra família teve um final trágico, e por onde paira uma aura de mistério sobre a morte do filho do casal que ali moravam. Nessa cidade, o protagonista, um pia de 13 anos chamado Max, descobre que coisas estranhas acontecem. Por exemplo: existe um jardim de estatuas de circo que se mexem. Mas é lá também que ele conhece Roland, um amigo que vai lhe acompanhar nas sinistras aventuras do lugar, e ainda apresentar a porta para os segredos do Príncipe da Névoa, cuja maldade é responsável pelos fatos estranhos que pairam no lugar.
O livro é sinistro, emocionante, divertido, mágico, e cheio de mistério e suspense. Mas, e nesse caso é um grande “mas...”, existem duas coisas que merecem menção: a primeira é que o livro (como eu já disse) foi o primeiro romance de Zafón, então quando eu o li senti a ausência de certa maturidade (até porque ele tinha 25 anos quando escreveu), e a falta daquele toque poético que tanto me impressiona nele, além de alguns pontos do livro que foram fracos; segundo (o que talvez até explique porque eu achei meio fraco), Zafón escreveu esse livro para ser infanto-juvenil. Logo, se você, como eu, é apaixonado pelos romances adultos dele, não se assuste caso algo soe estranho.
Mas existe uma última coisa que gostaria de colocar em pauta aqui. Muitos escritores, quando você os lê bastante, apresentam um padrão na forma de contar suas histórias. Uma fórmula narrativa pela qual todos os seus romances se desencadeiam. E digo isso sem querer parecer estruturalista, é só que é impossível você ler, por exemplo Dan Brown, e não ter a sensação de que está lendo a mesma história, só que com fatos diferentes. Enfim, acabou que com o Zafón é o mesmo. Sem nunca querer comparar ele com Dan Brown, uma vez que a forma de escrita do Zafón é mil anos luz superior. Mas o Zafón usa a seguinte fórmula: personagem no presente se depara com algum objeto que exerce qualquer tipo de fascínio sobre ele (um livro, alguém, um lugar), e a partir de então começa a procurar no passado a história desse objeto. O que acontece é que esse objeto é assombrado de alguma forma por alguma história triste e nebulosa, que passa a colocar em perigo o protagonista que por qualquer capricho do destino, esbarrou com esse objeto. E agora, a única forma de sobreviver, é desvendando os segredos por trás dele, o que faz com que a história passada desse objeto seja a mesma do protagonista no presente sejam a mesma. E isso, em todos os seus livros.
Eu sei que qualquer esboço de um padrão nas obras de um autor costumam soar como “desmerecimento”, mas em suma, não é bem assim, basta listar autores como Henry James e Machado de Assis, que também adotavam “fórmulas literárias”. De todo modo, acho que independente disso o Zafón continua sendo um dos melhores contadores de história da atualidade, e mesmo que ele não vá ganhar o Nobel de Literatura, continua sendo um escritor que (ao menos em suas obras adultas) é complexo e profundo para mim. E vale lembrar que ele já usava essa fórmula antes de seu “bum” de sucesso.

Para finalizar, digo que VOCÊ PRECISA LER A SOMBRA DO VENTO E O JOGO DO ANJO, mas se você nunca leu Zafón e não é um leitor de obras grandes, comece com O príncipe da névoa. É um livro divertido e que você consegue ler em uma tacada.