sexta-feira, 14 de março de 2014

Os ratos sublimes – resenha de Ratos e Homens, de Steinbeck




Para abrir as minhas resenhas sobre clássicos, escolhi uma das histórias mais tocantes que já li, e talvez uma das mais belas. É verdade que quando falamos em clássicos imaginamos obras que estão separadas de nós por pelo menos um século de distância, mas não é preciso recuar aos tempos do “vossemecê” para se encontrar um desses grandes livros. E nem precisa o livro ser “grande” no sentido mais literal da palavra. Existem clássicos que são “pequenos”, do tamanho que se pode ler em uma sentada, sendo que alguns deles foram escritos ainda ali, no século XX. É o caso da obra Ratos e homens (L&PM, 2011), do ganhador do Prêmio Nobel de 1962, o americano John Steinbeck.
Com uma variação de páginas que pode ir de 90 até 140 páginas dependendo da diagramação e do tipo de edição, Ratos e homens se tornou desde sua primeira publicação uma obra célebre. Além de tornar seu autor mais conhecido no cenário literário, arrebanhando mais leitores, a obra conseguiu combinar com maestria o estilo e a técnica de um escritor maduro, visível no narrador, com a forma coloquial da fala, mais precisamente o estilo caipira, presente em cada dialogo do romance, o que por si só foi uma grande prova de domínio estilístico. Mas vamos parar de palavrório, e ir ao ponto:
O romance se passa durante a depressão econômica dos anos 1920 nos EUA, e contam a história de dois amigos que, no mínimo, são bastante incomuns. Trata-se pois de um homem baixo, com uma ligeira familiaridade com os roedores que batizam o título, mas que é dotado de um cérebro incomum para homens com seu nível de instrução, e seu companheiro, um gigante assustador, mas que tem um coração e uma mente infantis. Juntos, esse exemplo de contraste, formam uma amizade de toda incomum, enquanto viajam pelo país em procura de emprego nas grandes fazendas do interior americano. 
John Steinbeck 
George – o cara de rato – até levaria uma vida mais fácil devido a sua astucia, se não fosse seu enorme amigo, Lennie, que por ter uma cérebro de criança e uma força de Golias, está sempre causando confusão e metendo os dois em sérios problemas. Mas, entre um tragicomédia e outra, eles conseguem juntar algum dinheiro, e vão sonhando em realizar um sonho: serem donos de uma pequena propriedade rural, uma terrinha simples, mas que seja deles. E no caminho desse sonhos, eles são levados até uma fazenda da Califórnia, onde suas vidas e a vida de outros peões dão início ao conflito do romance, pois muita dor separa os dois amigos de seu sonho.
Para começar, o filho do dono da fazenda gosta de desafiar os grandões, enquanto sua jovem esposa adora cair nas graças dos peões da fazenda, e logo Lennie se vê alvo de uma dupla bastante malévola. Mas nesse meio tempo, os dois amigos conheceram outros homens como eles, como o velho capaz, que já raquítico e fraco, está disposto a colocar todas as suas economias no sonho dos amigos. E o cavalariço negro, que em plena era da segregação racial americana encontra nos estranhos amigos um vislumbre para sua felicidade.
Assim, essa história se torna, antes de tudo, uma história sobre os sonhos humanos, e a brutalidade do mundo em que vivemos, Uma história sobre como coisas frágeis e belas tendem a ser despedaçadas por uma realidade apática e materialista, que reduz homens, como insinua o título, à ratos. Mas é também uma história sobre a solidão humana. Sobre como homens sem nenhuma esperança se encontram, e como buscamos, em iguais, e em cada réstia longínqua de sonhos, nos tornar completos. E nesse sentido, o livro é atemporal.

É uma das histórias mais tocantes que já li, e embora não tenha me levado às lágrimas, não me manteve apático, longe disso! Steinbeck é um ótimo criador de tipos, e em seus personagens encontramos vida e vigor, sendo impossível não se apaixonar. E embora o destino não vá ser clemente com a dupla de amigos, em sua tragédia nós, os leitores, encontramos aquela que talvez seja a mais sublime catarse de todas: a lembrança de que não é o mundo, mas os sonhos que fazem os homens. 

domingo, 9 de março de 2014

Anatomia dos clássicos



Somente depois de escrever esse título eu me dei conta do quando ele é pretensioso. Mas, em minha defesa, digo que a tarefa que me coube é igualmente pretenciosa: escrever uma introdução para um especial de clássicos no blog. Me deu até um friozinho na espinha, para falar a verdade, e enquanto eu vou enchendo linhas para ganhar tempo, me ocorre que críticos e teóricos literários do mundo inteiro se debatem sobre essa questão há muito tempo, sem terem chegado em um consenso em absoluto. Logo, não tenho certeza que posso contribuir muito para esse campo, principalmente porque com pouco mais de duzentos livros lidos na vida ainda sou um leitor amador. Em todo caso, tarefa dada é tarefa cumprida, então seja o que Deus quiser...
A primeira coisa que me ocorre quando falo em clássicos é a divisão que isso provoca nos leitores. Enquanto alguns julgam os clássicos os livros mais sérios e criteriosos que existem, outros o consideram sumamente difícil e de acesso complexo – para alguns até algo obsoleto. Assim existe uma divisão entre leitura chamada “best-seller” e leitura de clássicos.
Mas eu não enxergo tão preto no branco essa divisão. Em primeiro lugar porque o termo “best-seller” é empregado por muitos leitores como algo pejorativo, tido como literatura de segunda categoria. Mas, esses intransigentes não levam em conta que muitos clássicos foram em seu tempo verdadeiros best-sellers: Os miseráveis, de Victor Hugo, por exemplo, venderam milhares de cópias só nos seus primeiros meses de publicação, tendo sido um fenômeno literário digno de Harry Potter ou Crepúsculo. E se não for o bastante, foi um livro que muitos críticos chamaram de subliteratura (Dostoievski, por exemplo – apesar de Tolstói ter amado o livro).
Em contrapartida, atualmente muitos livros e autores bons se tornam best-sellers, e podemos atribuir isso ao seu talento, não as leis de mercado. É o caso do Saramago, ou do Rubem Fonseca aqui no Brasil. E quanto a linguagem difícil, e tal, é importante lembrar que as obras clássicas foram escritas em um tempo diferente do nosso, onde a linguagem não era difícil. E, pesando tudo isso, eu realmente creio que não existam livros difíceis, mas leitores despreparados (tirando os livros de James Joyce, Marcel Proust, Guimarães Rosam William Faulkner e Thomas Mann, claro), enquanto outros autores clássicos possuem uma linguagem extremamente acessível sim, como Kafka, Hemingway e F. Scott Fitzgerald por exemplo.
Ítalo Calvino 
Mas o que determina que os livros desses autores venham a receber o tão celebrado peso de um clássico? Ítalo Calvino (e tenho certeza que muitos pensaram que eu usaria esse livro como base, afinal, ele é um clássico da teoria literária) em sua obra Por que ler os clássicos (Cia. das Letras, 2007), defende que um clássico pode ser lido por leitores de todos os tempos, e por mais que as condições sociais, religiosas, costumes e afins mudem, o leitor de todos os tempos sempre irá encontrar no clássico algo que lhe fale diretamente em sua vida. Isso quer dizer que um clássico é um livro que, acima de tudo, é atemporal, e pode ser lido em qualquer tempo com algo de imediato ao leitor. Ao mesmo tempo, para continuar sendo lido (e relido!) é importante que ele tenha sempre algo novo para dizer, por mais conhecida que seja a história, mesmo para alguém que já o leu. Assim, Calvino defende um clássico como um livro que jamais termina de dizer o que tem para dizer. É algo que sempre se renova. Outro ponto importante, é que o clássico é universal, ou seja, todos conhecem, e ainda assim extremamente pessoal, porque cada leitor tira de um clássico uma medida diferente. Assim, existe um livro que pode sim ser um clássico apenas para mim, enquanto pode haver outro clássico que eu odeio (particularmente eu e os clássicos brasileiros não nos damos bem, mas isso é uma herança dos meus tempos de escola).
C. S. Lewis
C. S. Lewis, em outro livro fantástico chamado Uma experiência na crítica literária (Unesp, 2009), defende que o que determina o valor de um livro é primeiro o modelo de leitor. Assim, um livro que nós não gostamos ou achamos difícil, provavelmente é resultado de nossas expectativas e gostos sobre o livro, sendo que o ideal para se ler um livro de verdade é lê-lo sem preconceito e sem desejos, é deixar que o livro conduza o leitor, que o livro exija o que pretende do leitor, e que o leitor cobre apenas isso do livro. Assim, o problema da dificuldade nos clássicos pode residir em nossa forma de ler. Mas o nessa mesma obra, Lewis defende que um valor de um livro é determinado pela capacidade que um livro tem de tocar seus leitores, e por isso um best-seller do pior tipo pode vir a se tornar um clássico pessoal para mim.
Mas para fechar o assunto, pensemos em quantos livros foram publicados nos tempos de Machado de Assis, Victor Hugo, Tolstói, Hemingway, e quantos dos autores contemporâneos desses grandes nomes nós conhecemos hoje. Muitos poucos. E mesmo de alguns nomes cujos livros sobreviveram, apenas uma parcela de suas obras ainda é lida. Isso porque o tempo é sim o maior dos juízes, e por isso um clássico é uma obra cujo conteúdo humano, cuja verdade, cuja beleza, cujos traços são tão fortes, que irão sobreviver ao tempo e habitar seus leitores em todas as épocas, como parte do imaginário e do conhecimento humano. Assim, o verdadeiro clássico é aquele que é, antes de tudo, humano, e partilha dos sentimentos, sonhos, medos, carências, e problemas do homem enquanto houver humanidade.



Está feito! Não foi tão difícil, mas também não foi um passeio no parque. E se você é do tipo de leitor que só encara clássicos, ou que quer começar a caminhar por essas veredas, confira ao longo dessas três semanas que restam de Março nossos posts especiais, com resenhas, críticas, e curiosidades.

Até.

sexta-feira, 7 de março de 2014

No corredor da morte – resenha de À espera de um milagre

Capa da edição anterior, com poster do filme


Em primeiro lugar, gostaria de agradecer ao senhor Stephen King por me fazer chorar litros de lágrimas como uma criança cujo doce foi roubado. E não estou falando de lágrimas ocasionais, silenciosas, escorrendo numa boa, mas sim em uma torrente, com direito a soluços e tudo. Na verdade a coisa foi tão violenta que eu tive que, faltando dez páginas para acabar o livro, parar a leitura e chorar tudo de uma vez, para conseguir lavar o rosto e voltar a ler. É meus amigos, esse é o efeito de À espera de um milagre (Objetiva, 2005), do mestre do terror, que nesse livro quis provar que é antes um mestre do fantástico do que do terror.
Em segundo lugar, preciso perguntar: mas de onde desencavaram esse título em português? O original The green mille nunca nem foi cogitado como título no Brasil, e olha que antes o livro foi publicado por aqui com o nome de O corredor da morte. Se bem que, convenhamos, o título definitivo ficou bem legal, talvez até mais que do original, que só faz sentido para quem lê o livro, e com atenção.

Mestre Stephen King
 E digo ainda: esse é de longe o melhor livro escrito pelo King, e não digo isso só pela história, afinal, apesar de o titio Stephen não ser considerado um “escritor sério”, mas sim um “autor de massa e de histórias de subliteratura”, a verdade é que quando se trata de criar enredo, personagens e tramas ele faz isso magistralmente sim. Com personagens que irão se tornar ícones e sobreviver por décadas, quiçá séculos, no coração e nas mentes dos leitores (ó! Nada como uma declaração clichê para embelezar a defesa de um escritor popular). Enfim, o fato é que ele sabe sim criar enredos muito bem amarrados, que prendem o leitor, são diferentes, e originais. E apesar disso, não é por essa razão que esse é o melhor livro dele para mim.
O fato é que ele escreveu com muito mais cuidado, e a linguagem e a estética ficou muito mais acabada que nos outros livros. O personagem narrador é marcante, ele fala com muita propriedades, trejeitos, e opiniões que fazem dele quase alguém real. Existe uma poética que normalmente falta na prosa de autores de fantasia, e a história segue caminhos complexos da narrativa, como a não linearidade, onde o autor vai contando por reminiscências o ocorrido. Nota dez para o titio Stephen aqui.
Quanto a história, acho que não preciso falar muito, pois todos, mesmo quem não assistiu o filme nem leu o livro a conhecem. O livro conta sobre um personagem enigmático chamado John Coffey (nome muito parecido com João Café em português), um negro absurdamente alto, com músculos ridiculamente bombados, e com uma personalidade, no mínimo, exótica. Em miúdos: o cara grandão chora o tempo todo e tem medo de escuro. Seria cômico, não? Mas nem de longe nosso personagem é alguém fofo, na verdade ele está no corredor da morte por ter estuprado e assassinado duas menininhas indefesas. Isso ao menos supostamente. E se tudo isso já não fosse bem peculiar, John Coffey ainda tem mãos mágicas (sem trocadilhos). Com um toque ele é capaz de competir com muitos pastores pentecostais e curar qualquer doença, mas com muito mais charme.

Michael Clarke Duncan interpretando John Coffey 

A história é contada por Paul Edgecomb, que por muitos anos foi o chefe dos guardas no corredor da morte. E além dele, outros personagens passam pelo livro, como o fabulo (e responsável por metade de minhas lágrimas) Sr. Guizos (ou Mr. Jingles para quem só assistiu o filme), que é talvez o ratinho mais esperto de toda ficção universal. Ao longo da trama, vamos descobrindo mais sobre Coffey, e os difíceis dias antes de sua execução, onde os guardas precisam lidar com aquele que talvez seja o maior enigma de suas vidas.

Agora, para falar do filme, acho que sua melhor qualidade é ser bem fiel ao livro, com algumas mudanças, o que é natural, mas que segue bem próximo a linha do livro. (Ainda assim, o filme é bom, enquanto o livro é perfeito). O diretor já trabalhou com várias adaptações da obra de King, incluindo Um sonho de liberdade, que é um de meus filmes favoritos. Recebeu várias indicações ao Oscar, embora não tenha recebido nenhuma. Mas, se você tem três horas disponíveis, e quer gastar com um bom filme, assista. Vale a pena, afinal é sempre mágico ver seus personagens ganharem vida (principalmente o Sr. Guizos), sem falar que Tom Hanks está em uma de suas melhores interpretações. 

A nova capa do livro:


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

A fórmula Zafón – resenha de O príncipe da névoa




Ano feliz é um ano com lançamento de um livro novo de Carlos Ruiz Zafón. O cara é tão bom, que eu particularmente acendo uma vela para qualquer santo que faça campanha de ajudar escritores a escreverem (e ele está demorando tato para acabar a saga do Cemitério dos Livros Esquecidos, que logo logo vai precisar de muitas velas). Após se tornar mundialmente conhecido e um dos escritores mais vendidos da história editorial recente do planeta, com A sombra do vento, as editoras encarregadas de publicar sua obra pelo mundo se apressaram em correr atrás de outros títulos do cara para preencher sua fatia no mercado – o que é bem necessário, já que ele entra para a categoria R. R. Martin de escritores lentos para escrever. E seguindo essa vibe, a Suma de Letras trouxe os primeiros livros de Zafón, ou seja, aqueles que ele escreveu antes do famigerado Sombra do vento, que fizeram algum sucesso na Espanha, mas nada digno de ser traduzido antes (apesar que Marina foi um livro e tanto!), e entre esses livros está o primeiríssimo trabalho dele, O príncipe da névoa.
Antes de entrar no campo do “o livro fala sobre...”, preciso dizer: sou culpado por antecipação para falar do Zafón, porque sou verdadeiramente fã do cara (ok, não li a biografia detalhada, nem pagaria para ver em um museu a coleção de cuecas do cara, mas acho que vocês entenderam). Foi com A sombra do vento que posso dizer que fiquei viciado em livros. O acho extremamente poético, e absurdamente criativo. As notas de suas histórias, que são sempre sombrias e melancólicas, caem como música aos meus olhos, sem falar que essa onde de modern gothic que ele usa é algo que eu acho incrível. Logo, se me pedirem para recomendar um escritor do coração, o tio Zafón seria talvez a primeira opção.
Carlos Ruiz Zafón
Muito bem, adendos feitos, vamos ao livro. “O livro fala” sobre uma família barcelonesa, que para fugir da guerra se mudam para uma cidade costeira pequena no interior. Eles mudam para uma casa onde outra família teve um final trágico, e por onde paira uma aura de mistério sobre a morte do filho do casal que ali moravam. Nessa cidade, o protagonista, um pia de 13 anos chamado Max, descobre que coisas estranhas acontecem. Por exemplo: existe um jardim de estatuas de circo que se mexem. Mas é lá também que ele conhece Roland, um amigo que vai lhe acompanhar nas sinistras aventuras do lugar, e ainda apresentar a porta para os segredos do Príncipe da Névoa, cuja maldade é responsável pelos fatos estranhos que pairam no lugar.
O livro é sinistro, emocionante, divertido, mágico, e cheio de mistério e suspense. Mas, e nesse caso é um grande “mas...”, existem duas coisas que merecem menção: a primeira é que o livro (como eu já disse) foi o primeiro romance de Zafón, então quando eu o li senti a ausência de certa maturidade (até porque ele tinha 25 anos quando escreveu), e a falta daquele toque poético que tanto me impressiona nele, além de alguns pontos do livro que foram fracos; segundo (o que talvez até explique porque eu achei meio fraco), Zafón escreveu esse livro para ser infanto-juvenil. Logo, se você, como eu, é apaixonado pelos romances adultos dele, não se assuste caso algo soe estranho.
Mas existe uma última coisa que gostaria de colocar em pauta aqui. Muitos escritores, quando você os lê bastante, apresentam um padrão na forma de contar suas histórias. Uma fórmula narrativa pela qual todos os seus romances se desencadeiam. E digo isso sem querer parecer estruturalista, é só que é impossível você ler, por exemplo Dan Brown, e não ter a sensação de que está lendo a mesma história, só que com fatos diferentes. Enfim, acabou que com o Zafón é o mesmo. Sem nunca querer comparar ele com Dan Brown, uma vez que a forma de escrita do Zafón é mil anos luz superior. Mas o Zafón usa a seguinte fórmula: personagem no presente se depara com algum objeto que exerce qualquer tipo de fascínio sobre ele (um livro, alguém, um lugar), e a partir de então começa a procurar no passado a história desse objeto. O que acontece é que esse objeto é assombrado de alguma forma por alguma história triste e nebulosa, que passa a colocar em perigo o protagonista que por qualquer capricho do destino, esbarrou com esse objeto. E agora, a única forma de sobreviver, é desvendando os segredos por trás dele, o que faz com que a história passada desse objeto seja a mesma do protagonista no presente sejam a mesma. E isso, em todos os seus livros.
Eu sei que qualquer esboço de um padrão nas obras de um autor costumam soar como “desmerecimento”, mas em suma, não é bem assim, basta listar autores como Henry James e Machado de Assis, que também adotavam “fórmulas literárias”. De todo modo, acho que independente disso o Zafón continua sendo um dos melhores contadores de história da atualidade, e mesmo que ele não vá ganhar o Nobel de Literatura, continua sendo um escritor que (ao menos em suas obras adultas) é complexo e profundo para mim. E vale lembrar que ele já usava essa fórmula antes de seu “bum” de sucesso.

Para finalizar, digo que VOCÊ PRECISA LER A SOMBRA DO VENTO E O JOGO DO ANJO, mas se você nunca leu Zafón e não é um leitor de obras grandes, comece com O príncipe da névoa. É um livro divertido e que você consegue ler em uma tacada. 





sábado, 15 de fevereiro de 2014

Resenha A menina que roubava livros – livro e filme

Poster do filme em inglês

Existem alguns livros que dividem nossa vida em dois momentos: antes e depois. Sempre que você pensar em livros, ele estará na sua lista de obras invariáveis. A menina que roubava livros está na minha, bem próximo do topo (assim como tenho certeza na lista de muitas pessoas, afinal, é um dos livros mais vendidos da história editorial de nosso país). E quando você ama demais um livro, você sempre espera com expectativa para ver os personagens ganharem vida na tela. Nem que seja para dar merda, mas ver os seus personagens mais queridos em carne e osso é sempre mágico (lembrando que magia negra também é magia). Sempre quis ver uma adaptação do Menina que roubava livros, e quando eu vi a notícia pela primeira vez, foi aquela congestão mental de expectativa. E, já adiantando o final dessa história (só para fazer jus ao mal habito da(o) narradora(o) dessa história), posso dizer que gostei muito do filme – quer dizer, não vou comprar o DVD nem o Blue-Ray original e tal, mas foi bom ver a Liesel falando e se mexendo, e com certeza vou assisti-lo uma vez mais (nem que seja SÓ uma vez mais).
Capa do livro pela Intrínseca
A história em si dispensa qualquer sinopse, já que todo mundo conhece a saga da menina que é adotada por um casal de meia idade durante a Segunda Guerra Mundial, e com isso aprende três coisas: a paixão aos livros, a odiar Hitler, e a amar algumas pessoas (como certo pai adotivo que toca muito acordeom, e um tal judeu com cabelo de passarinho, sem falar no alemãozinho que queria ser negro e daria tudo para beijá-la). E toda a saga dessa menina que desde cedo conheceu o sofrimento e a dor é nos contada pelo mais inacreditável dos narradores: a própria morte.
Sério, acho que poderia escrever uma tese (e possivelmente eu escreva) só para analisar a estrutura do narrador. A morte é a construção mais feliz do autor no livro, e ela é de uma poeticidade que tiraria muitos aspirantes à Shakespeare pro chinelo. Ela é complexa, com inversões de tempo, sempre adiantando a história, fazendo parênteses, reminiscências (vide Google para saber o que significa), causando quebra de expectativas e o melhor e mais complexo de tudo: ela narra a fome, o fim da vida, a violência e guerra de uma forma LEVE, uma forma terna, que não é opressiva para o leitor. Isso por si só já prova que esse é um dos livros mais importantes de nossos tempos, uma verdadeira obra de arte do senhor Markus Zusak, e é fundamental também, porque prova que literatura infanto-juvenil também é ARTE, com A maiúsculo, vibrante e em vermelho.
Markus Zusak
O filme, embora conte com a presença da morte, infelizmente não consegue fazer jus ao poder do narrador do livro, até porque ele aparece pouquinhas vezes na história (e sério, só eu imaginei a morte mulher? Afinal, existe um motivo para o artigo “a”). Existem alguns desvios no roteiro, como a falta de poeticidade dos roubos dos livros, que no filme é algo mais banal, enquanto no livro é algo totalmente lindo. Faltou um pouco da relação de Liesel com as outras crianças, mas, fora isso, o filme é bem fiel sim. Agora cuidado com o meio spoiler: mas aquela cena onde o Rudy diz “eu te amo” (ou tenta dizer), é muito desnecessária. Foi apelativa e não existe no livro.


Outra coisa que me incomodou no filme foi a tradução (a legendada pelo menos, não vi dublado). Cara, qual o problema dos tradutores no Brasil? Por acaso pensam que toda criança e jovem é retardado, ou feito de cristal, e por isso precisa ser poupado de qualquer coisa que não seja fofinha? Toda vez que alguém falava “saumensch” e os caras traduziam para “porquinha”, eu queria pular de um poste. Não só de “bem me queres” se faz uma vida, e acho que se existem palavrões, palavras fortes, e expressões chulas na vida, é bobagem tentar esconder isso. Negar o real não é fazer fantasia, é transformar a fantasia em algo insosso. Até porque na trama o saumensch (porca imunda), era aplicado com carinho (e sim, sei o quanto isso parece irônico). Enfim, no balanço geral termino assim: o filme é valido, mas o livro é perfeito. 


Trecho do livro

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Os melhores e os piores de 2013



Eae, pessoal. Trouxe hoje uma teg que já está meio atrasada, né? Mas, como já diziam os antigos, “antes tarde do que nunca”. Fazer um balanço das leituras de um ano inteiro não é tão fácil quanto gostaríamos, principalmente se foi um ano em que você leu bastante. Mas, fazendo muito esforço e causando muita dor no coração, consegui reduzir minhas leituras a cinco livros que foram os melhores e cinco que deixaram a desejar. Assim, comecemos pelos livros que poderiam ter sido melhores:


01 – O oceano no fim do caminho – Neil Gaiman (Intrínseca, 2013)
Ao certo fiz alguém torcer o nariz e dizer “esse cara é louco”, mas tenho um bom argumento em minha defesa: eu esperava mais, muito mais. Sempre ouvi o nome de Gaiman associado às estrelas mais brilhantes da literatura fantástica. Logo, imaginei um trabalho digno de uma supernova que se preze. E não foi o que houve. O que encontrei foi um livro bem mal escrito (ou, possivelmente, bem mal traduzido), que se propunha a ser adulto, mas tinha uma temática, uma estrutura e uma narrativa totalmente infanto-juvenil (o que também pode ter sido uma jogada da editora). Em todo caso, não esteve nem aos pés do mito que me pregaram. Já os trabalhos dele que li depois foram bem mais felizes.


02 – On the Road – Jack Kerouac (L&PM Editores, 2012)
E lá vamos nós de novo: “esse cara só pode estar brincando!”. Qual o problema agora? Também gostaria de saber. A verdade é que sou a única pessoa que conheço que leu o livro e não gostou. Em todo caso, posso jogar a culpa na nossa tradução, afinal o próprio tradutor assumiu não ser a melhor tradução de um livro. Mas vale dar um refresco pro cara, e entender minha desilusão (foi na verdade um caso muito parecido que com o livro do Gaiman), afinal, On the Road é um romance escrito para ser falado em inglês, com uma sonoridade e uma musicalidade totalmente próprio para o idioma inglês.


03 – José – Rubem Fonseca (Nova Fronteira, 2011)
Talvez essa tenha sido a maior das decepções, pelo simples fato que Rubem Fonseca é meu autor nacional favorito. O livro é uma novela, que se propõe a ser autobiográfica, e contar a infância e juventude do escritor mineiro, desde seus dias em Minas, até a mudança para o Rio. A narrativa é entrecortada por reminiscências do autor, e por mais de um momento você sente estar lendo um livro de ensaios, ao invés de uma novela. E existe uma exaltação carioca que é provavelmente a maior ficção no livro, e é justamente o que mais irrita.


04 – Minha querida Sputnik – Haruki Murakami (Alfaguara, 2008)
Murakami é um fenômeno mundial, e embora ele seja autor de um dos meus livros favoritos, meu contato com os outros livros dele não foi positivo. Achei esse livro muito interessante pela idéia, e o clima de solidão que ele desperta é muito forte. Mas a maneira como ele conta foi quase infanto-juvenil, e existe algo de forçado.


05 – Elogio da madrasta – Mario Vargas Llosa (Alfaguara, 2009)
Agora eu consegui!!! Vou falar mau do Mario Vargas Llosa, deve ter alguém parando de ler esse post agora. Mas antes de mais nada preciso dizer em minha defesa que só li dois livros dele: esse e o Travessuras da menina má, e o Travessuras entra fácil na minha lista de favoritos, assim, um amei, outro, nem tanto. No caso do Elogio da madrasta achei muito monótono. O autor perde tanto tempo com fantasias de fetiches (o que é natural, já que é um romance erótico), e com as oblações do Dom Rigoberto que dava para dormir. Mas, a parte da história mesmo, e principalmente o final, até que fazem valer a pena a sonolência do enredo.

E esses foram os cinco menos felizes, que com certeza devem ter incomodado alguém. Mas, como nem só de espinhos vive-se a vida, esse ano eu também tive uma fase muito boa, na verdade, escolher só cinco livros como os melhores foi bem difícil, enquanto achar cinco para os piores também não foi tão fácil. Então, vamos lá:


01-  Tudo o que tenho levo comigo – Herta Müller (Cia. das Letras, 2011)
Imagine um livro onde cada palavra foi pensada para ter um sentido poético, e a construção mais simples seja extremamente bela, sendo que o poder criador da autora é tão forte que mesmo nas cenas mais tristes, violentas e desumanas, ela consegue encontrar um tipo de beleza sensível que pode te dar até vontade de chorar. É exatamente assim o livro da escritora alemã, premiada com o Nobel de Literatura. Em determinado momento, o personagem diz que romances são para se ler uma única vez, enquanto poesia é para se ler mil vezes. Acho que o poder de construção poética de Müller em cima da linguagem conseguiu criar um romance justamente com essa dimensão poética. Fora os fatos históricos que ela conta, sobre os trabalhos forçados que os alemães tiveram que pagar aos russos após a segunda guerra que achei fantástico (um tipo de justiça poética). Favorito, certeza!


02-  Travessuras da menina má – Mário Vargas Llosa (Alfaguara, 2006)
Agora imagine um livro que tenha o poder de te fazer se sentir incrivelmente só. É exatamente esse o poder desse livro do Llosa (outro ganhador do Nobel), que conta uma das histórias de amor mais doentias de toda a literatura. É um romance recheado de humor negro e certa polemica sobre o mito romântico que com certeza fez muitas pessoas odiarem o livro – o que é perfeitamente compreensivo. Mas na medida em que ele explora os limites do que é o amor, sua forma e dimensão, ele explora a própria natureza dos sentimentos e da solidão humana, em um mundo cosmopolita, onde você pode nascer na América do Sul, morar a maior parte da vida na França e morrer na Suíça, sem com isso chegar a pertencer existencialmente a nenhum desses lugares. Bravo!


03-  Doutor Fausto – Thomas Mann (Nova Fronteira, 2011)
 No momento em que estou escrevendo isso eu estou lendo meu segundo livro do Mann (que, adivinhem, é mais um ganhador do Nobel – mas juro que é coincidência), o seu livro mais “importante”, A montanha mágica. No entanto, preciso confessar que Doutor Fausto continua sendo meu favorito das obras dele. Apesar de mais difícil e cansativo, eu me apaixonei pelo livro desde o começo. A linguagem filosófica, a sátira implícita (adoro sátiras), a exploração da existência humana e da arte, é de uma profundidade que justifica a complexidade do livro. E tem a temática do homossexualismo, isso num tempo em que ser gay dava cadeia fácil. E o melhor, a crítica aos domínios de Hitler, que sempre acompanhou a vida do escritor. É um clássico que jamais perderá seu brilho. A história fala de um músico, baseado Nietzsche, que vende sua alma ao diabo para compor a música perfeita. É uma paródia da lenda original, que entre outros livros inspiraram o Fausto, de Goethe. Outro favorito.


04-  Em busca do tempo perdido, vol. 02: à sombra das raparigas em flor – Marcel Proust (Globo, 2006)
E já que é para falar de livros difíceis, não poderia faltar aqui por nada o senhor Proust. De tudo o que eu li na vida, nenhum romance foi tão denso. Isso porque o tempo em Proust se desdobra sobre si mesmo, e não flui para o futuro, mas volta constantemente para dentro dele próprio, o que torna ler um dos volumes do Em busca do tempo perdido uma luta contra a maré. Mas a beleza poética, e o profundo conhecimento da alma humana do Proust faz qualquer esforço valer a pena. Acho que encontrei aqui algumas das passagens mais lindas da minha vida como leitor. E teve a feliz coincidência de que ele falava sobre a mesma coisa que eu estava vivendo, e por isso sou testemunha de que os livros são o melhor apoio para qualquer momento na vida. A história fala de um jovem que vive seus primeiros amores, enquanto vai adentrando a adolescência.


05-  As cidades invisíveis – Italo Calvino (Cia. das Letras, 2010)
Agora, sabe aqueles livros que você começa a ler de tanto ouvir falar, mas tem certeza que vai ser um saco? Foi exatamente assim com esse. E, caramba, nunca fiquei tão feliz de estar errado! A história gira em torno do poder das histórias, da profundidade da imaginação humana e sua relação existencial com os sonhos dos homens. Cada cidade que Calvino descreve é uma imagem do homem. É um livro curto, fácil de ler em um único dia, mas o tipo de história que te persegue por muito tempo depois que termina.


Enfim pessoa, esse foi meu balanço das leituras do ano passado, que está chegando bem atrasado. Então, que 2014 traga livros ainda melhores. Bye! 

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Os deuses nunca morrem – Resenha de Deuses Americanos, de Neil Gaiman



Ultimamente eu tenho dedicado algum tempo para ler literatura fantástica, que embora eu sempre tenha curtido, eu cheguei a ler pouco. E é impossível falar em literatura fantástica contemporânea sem associar o nome de Neil Gaiman, como todos sabem. Mas, apesar dos mitos, das lendas, e dos louros que envolvem o nome do autor britânico, meu primeiro contato com ele foi bem infeliz. O livro O oceano no fim do caminho me encantou mais pela capa que pela história. Mas... como águas passadas não movem muinhos (nem as águas do oceano), eu dei mais uma chance para o cara, e li a cultuada série de quadrinhos Sandman. E não, você não leu errado o título, esse post é sobre o livro Deuses americanos (C, 2011) mesmo, mas eu só decidi ler esse livro porque eu fiquei viciado na série (que diga-se de passagem, é um absurdo o preço das edições definitivas da Panini). E qual meu parecer? Deuses americanos redimiu o cara em termos de literatura completamente.
Uma coisa que preciso dizer é que ler as histórias de Gaiman é ter contato com um tipo diferente de literatura fantástica. Gaiman tem seu próprio universo, e é o universo de uma literatura fantástica estranha. Mas já explico isso.
Neil Gaiman
A história de Deuses americanos, conta a vida de Shadow, um ex-presidiario que descobre que sua mulher morreu no dia em que sai da cadeia, e o mais chocante, morreu o traindo com seu melhor amigo (vale dizer também que ele foi preso por conta de uma idéia da mulher). Mas, piriguetes a parte, o cara fica arrasado, e no meio do caminho para casa conhece um tal de Sr. Wednesday, que lhe oferece um emprego como capanga do cara. A partir da daí coisas estranhas acontecem ao redor de Shadow, até que ele finalmente descobre que seu empregador é ninguém menos que o papai de Thor, o grande Odín, que para quem não conhece é a versão de Zeus para a mitologia nórdica. De súbito, Shadow se vê no meio de uma guerra, onde os novos deuses americanos (como o deus do dinheiro e o deus da TV), estão tentando obliterar os deuses antigos. E se você estiver pensando: o que bulhufas foi fazer Odín tão longe da Europa?, a resposta é talvez o que existe de mais legal no livro: os imigrantes o trouxe, bem como os muitos deuses de todas as partes do mundo que hoje povoam a América, em suas mentes, com suas orações e tradições.
Agora Shadow precisa correr contra o tempo para desvendar os segredos por trás dessa guerra aparentemente inevitável, e descobrir o que ele tem de tão especial ao ponto de um deus lhe procurar. A trama é cheia de reviravoltas, e o leitor precisa ficar atento.

O livro foi o mais premiado de Gaiman, com prêmios nos EUA e na França (o legal é que o cara é britânico), e esteve entre os que mais venderam de suas obras. É uma literatura fantástica para adultos, e tem cenas fortes. É um mergulho e tanto para você que curte literatura policial, o fantástico, erotismo, terror, e uma pitada de humor, com alguns personagens que irão marcar profundamente seus leitores. 
E como eu havia dito, a ficção de Gaiman é talvez mais estranha que fantástica. Isso porque ele usa muito os elemento de literatura pulp, que procura trabalhar mais com o movimento em passagens absurdas sem explicação, que de fato com sentidos. Gaiman combina isso com os elementos do folclore de muitos povos, para construir um universo fantástico que tem muito a ver com um país da América, que foi colonizado por diferentes povos (como o Brasil, por exemplo). E tem algo interessante que eu noto nos trabalhos dele desde Sandman: os protagonistas só participam da ação indiretamente. Ou seja, se tem luta são outros que lutam, eles só aparecem em momentos definitivos para fechar os nós da intriga. Ainda assim, vale muito a pena.


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